08 março 2007

(idiomas pouco ou nada domados)









isto é o meu espaço de poço turvo
isto é o ruído porcelana
apontado para o diâmetro certo e cintilante.

hoje, tu e eu, vamos soprar este espaço como um facto.

os braços estendidos sobre as coxas
os olhos nas pontas dos dedos e a muralha de uma palavra
vinda ao acaso.

sem pontos pretos ou outros.
asasa
é melhor assim, não conhecendo a fraqueza
ou esta tentativa menor.
é melhor a irresponsabilidade da catástrofe,
chorando desidratada e sem horário.

isto é o meu espaço virado de frente para o rumor
e carbonizado por querer.
asasas

07 março 2007

fóssil

as
as
as
as
as
as
as
as
as
as
as

as




eu sei que tens estrelas penduradas num corpo de papel
que levas à boca. fazes-me lembrar um colar de gotas incandescentes

deslizando como uma onda,

terna e sedutora.

eu penso muito com a cabeça e nunca pensei na minha
relação com o chão,
com os sítios onde te encontro e que piso.
asas
vou passar a perseguir-te como uma alga
sorvendo para o corpo o mais profundo medo
de te perder.

e na luz do meio-dia vou abrir os fósseis nos meus lábios
por uma vez te ter beijado.
asa
ass

05 março 2007

nova raiva


asss
asas
asas
asa
as
aass
asas
houve quem me quis dizer que num dos meus voos me apaixonei
e chorei de lágrimas quentes por todo o meu corpo,
molhando-me achado pelo voo
e pelo corpo que no meu se meteu
desde o início.

e não paro de escrever nesta emoção aviadora
que é a nova raiva dos meus pulmões.
asas
secreta e de pavilhão
é um laser em chafariz num vaivém de curvas
que depois se instala num tépido fumo de frutas.
aasa

03 março 2007

arroz de forno

eu tenho a vigília, a vigília toda das escadas que ficaram gastas com os passos dos meus avôs e das minhas avós. tenho sobre a varanda três vasos de brincos de princesa que depois de os ter nas mãos lhes tiro a cor sobre um tiro nos cabelos. ficávamos depois olhando umas alminhas num altar pequeno e descíamos o caminho de terra e de pedra correndo com as oliveiras ao lado. carregadas de azeitonas, mais tarde estivemos a abaná-las num fim de tarde de inverno. fazia frio e o kispo verde-tropa que eu trazia era do meu pai que vinha na mala do ultramar. eu tenho a vigília que é a vigia do meu solar nocturno, do que me tira o travesseiro da cama e do que me acorda com os choros dos bébés nuns metros quadrados acima dos meus. não posso guardar memória disto, porque isto não tem sol vermelho nem existência que para aqui interesse. guardo uma broa cozida num forno de pedra e todos os campos de hortelãs que depois eram metidas nas panelas de três pés. com o passar do tempo, o forno passou a ser pós-moderno, mas sempre com um vestígio de escuro e de preguiceira. agora não está lá nada. existe a chaminé que precisou de descer sobre a cozinha, porque os olhos não conseguiam ver com tanto fumo por entre as salas. o papel de parede descolava-se, mas mesmo assim sempre foi castanho e com desenhos de flores que até agora nunca soube quais. na porta, um pau grosso segura a fechadura mas já mais ninguém o segura, morreram os avôs e as avós e as aves já não têm vozes. descíamos um penedo e imaginávamos um baloiço por entre os figos. as mulheres lavavam roupa num tanque que não era comunitário, era só dali, dali e daquela seara que era a das oliveiras. o tanque por debaixo da figueira costumava ser fresco e enquanto os diques medievais davam de beber ao milho íamos debicando os cachos de uvas, quase que eram gotas de chuva em açucar e depois metiam-se num lagar que só com a adolescência podia ser pisado. quanto a hoje, a filha solteira que morreu de desgosto de amor mudou de casa. tem um apartamento, um T1 e bem no meio do sítio que lhe viu as tripas crescerem por entre as molhes de palha e os coelhos. a outra que mais tarde veio para a capital tem um rumo que desconhece avanços, mas pelo menos já não se preocupa com as oliveiras que possam não deixar cair azeitonas. mas contudo sabia bem abrir assim ao meio, com as maõs, um pêssego peludo e comê-lo de repente depois da missa. não interessava se era preciso ir à missa, tinha-se um luto escorrido pelo pescoço que devia marcar presença, não vá a vizinha do lado chamar a atenção e apontar o dedo à infame. rachei a cabeça duas vezes descendo aquelas escadas. numa das vezes estatelei os olhos no meio do comedouro dos porcos. noutra, brincava no portão e as primas afligiram-se com a perda de sentidos. não recuperei consciência desde aí. tive a ilusão de que o sabor das amoras silvestres me pudesse fazer voltar ao portão onde por entre as cerejeiras brinquei às casinhas. tudo passou. desde o jogo das lojas, até às idas ao centro comercial que entretanto abrira e que só fazia parar o trânsito aos domingos. depois, chegaram os estádios com nomes de presidentes de câmara que em directo na tv dizem palavrões. fiz a vontade ao avô que me falava da segunda guerra mundial e da fome. estive sentado na cadeira esperando por quinhentos escudos se conseguisse estar quieto num período de cinco minutos. mas agora já mais ninguém joga aos quinhentos escudos. a casa é vazia. como começou a ser aliás desde os almoços sem bancos no pátio e já ninguém aquece a água ao sol para depois se lavar. as aranhas podem todas agora viver felizes e sem medo das crianças. é possível agora ter sempre fechada a porta do lavatório. as árvores não vão ter mais pernas para subir. e as avós não vão dizer que subir às oliveiras faz mal ao período das raparigas. as videiras deixaram de ter autor.
sasasa

(cerletti vestido de branco)

o doutor cerletti gostava de dar choques no cérebro,
“vamos lá”, dizia cerletti ligando o aparelho
e o homem meio a sorrir perguntava o que lhe tinha acontecido.
já não são precisos os psicanalistas: a convulsão
é uma questão de electricidade,
não tem nada a ver com as necessidades para o vazio,
basta de poesias que ninguém entende.
o doutor cerletti diz que a convulsão pode ser ligada à tomada
e ficar assim coberta de branco para vitrine e nobel
porque se é mental é para ser racional.

02 março 2007

a mulher que apetece amar

asas
ela diz "quando descia via um casal a beijar-se no banco do metro e queria que aquele beijo fosse meu. Enfim, vamos esperar que amanhã seja melhor."
assa
ele diz "querias um beijo no metro, assim com viagens a dois por estradas e túneis e todo um mundo por descobrir? Olha, eu também. Mas quanto mais não seja sorri-se pelo bem estar alheio, sem egoísmo que só faz mal. Quero que beijes todos os rostos como uma facilidade do ar que respiras, pois por agora é só isso que vale. Terás sempre um daqueles beijos gigantes e com os olhos de um gato sobre os ombros."
asas
ela diz "pelo silêncio...hum...estás em viagem, acertei?"
ass
ele diz " não, estou aqui, mas perdido no meio do trajecto da viagem, no meio da dúvida, no meio do vício talvez e de todas as músicas que sopram quedas de lágrimas sem destino. Estou vendo as cidades rodando nos pneus que rolam como cantos de vozes em coros fechadas. Mas cá estamos."
asas
ela diz "e estamos muito bem. Um dia ainda vamos olhar para estes movimentos e rir com toda esta orientação desorientada. E tudo será menos sofrido...Já te disse hoje que gosto de ti?"
asas
ele diz " não, mas nem sempre as palavras ditas têm de ser as correctas. Correcto é mais um sentir indizível, como aquele que sinto que te tenho. Fazes trazer um cintilante que quase mais ninguém traz, tu tens olhar que deseja olhar de perto. Só lamento que seja sofrendo que por agora tu te vejas, pois por mim não é isso que vejo. Vejo sempre uma espécie de promessa de segurança e de protecção que quero ser capaz de acompanhar e de seguir. Quero que vindo do meu fundo te tornes feliz, satisfeita com a vida e com o amor. Com tudo o que de tenso mas de completo ele te possa trazer. Gosto de ti e hoje é que não disse eu. Em última estância tenho um conforto que até agora, quase com trinta anos, não tinha.
asas
mas o que ele disse a seguir foi "numa próxima vez manda-me só ir à merda. É que eu já sei o caminho."
ass

01 março 2007

(a arte da fuga: fuga de contrapontos melódicos)






asa

eu não estaria a partir-me todo por dentro
se no enunciado do meu diário tu estivesses sobre um branco
que completasse este indizível. há correntes sobre este
impossível nomear,
assa
há inspirações que não podem estar numa receita ao jantar
há nocturnos felinos procurando fugas
e as partes restantes da humanidade.
asas
fico portanto nesta limpeza do rosto por te ter olhado
e bebo todas as cidadanias do teu inanimado verso
que de noite me encolhe e resguarda. terei uma legião inteira
à espera da tua volta
avisando-me do teu brusco chegar

e respirando sobre cada um dos teus clássicos intervalos.

estou tão contente por finalmente nenhum milímetro de ti
ser a régua dos meus blocos de notas.

não tenho na verdade horizontes de natal nem de princípio
muito menos de suficiente coragem. mas cumulo poemas
sem que te apercebas das alterações do clima
asas
e de toda a natureza.
asas
é assim que toda a independência dos objectos é literária
e que sobre a sua negação reside o incêndio
desta dupla resignação: tu tens vontade de poder
as
enquanto eu vou enchendo os campos de girassóis.
asas