22 março 2007

detalhe e frigidez


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Quem não dorme é refém dos barulhos, do ruído que estala dentro. Quem não dorme faz amor com o cosmos, porque é obrigado. Há todo um sistema de vestes compridas que circunda quem não dorme e à mão de contemplar: são os números vermelhos das horas no despertador, os lençóis enrolados e que as mãos arrumam, o ressonar longínquo da vizinha ou do vizinho, as persianas baixas mas a deixarem pequenas brechas para espreitar. Se não se dorme à noite então contempla-se tudo, juntando os pontinhos pretos que aparecem aos olhos fechados como viagem de astronauta. É engraçado como não adormecendo chega um universo apressado a quem está acordado. Desejar dormir é mais do que querer dar descanso ao cérebro. As sinapses continuam todas lá, mesmo quando nos esticamos. Sucedem portanto coisas inimagináveis a quem dorme. São as partes do corpo que se estendem como as antenas dos carros, as palpitações nas pontas dos dedos e das pestanas, o virar talvez violento de costas e barriga. Oníricas: é a primeira palavra no plural que nos vem à cabeça ao pensar em quem dorme. Diz-se que “quem dorme, opera e colabora com o que sucede no cosmos”, desde o desejável ao impensável, desde a quietude à agressão, desde a cor ao escuro.
assas

19 março 2007

(o prazer em repouso é o prazer em desespero)






asas

gritos abrem mestrias e batutas
e palavras fogem dos cálidos dedos das mãos.
por entre versos e reentrâncias
há memória de um lá longe que não se conhece:
só um sítio.

há manhãs escuras prolongadas até às outras
e no bico têm uma esperança mal entendida.
há noites em que um jardim azul te vem provar
e coça-te as pontas
o que tens de invicto.

fazer o quê quando as manhãs são papel-de-químico?

sussurra aqui “sem acordares”, isso,
assim a manhã perdura repete
afigura-se ao sol como uma bandeira desfraldada,

e sobe
subida de frente para uma sujeição que não se percebe.
asas

15 março 2007

um problema de metafísica

é bom saber que vives
sendo eu por detrás da tua sombra,
dentro da filigrana selvagem das peles.

é bom saber isso
saborear isso na totalidade
ver que vives num espelho arterial,
colorido indecifrável
simples sem mente.

assas

14 março 2007

vergonha tanta



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asas
asasas
achava que podias estar sem roupa fora do verso
assim para descobrir,

não brasa extinta
nem face assim cinzenta
ou pedra raiada no pó a despontar
um sorriso tolo.

como um pavio de célula.

fora do verso achava que querias que eu estivesse
assim vestido num retalhe de uma cascata,
não ao de longe na censura
não ao de longe na caridade.

no fundo
achava que podíamos querer uma espécie de nudez,
não o afogamento ou o vício das gentes com gás.

tantavergonhavergonhatantatanta.
assa

12 março 2007

papel d'água

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era a epopeia como agora é,
a caça nua do disparate
era o azul-cinzento do princípio da noite

era a poesia na mão dos dias
indo secretamente molhar-se às escuras
cantando cantando

era por isso não arriscar uma palavra muito alta
antes cair-se assim com os dedos no meio da boca,

sentindo o gosto de um soluço
ou a procura do poema não se sabendo onde.

aasas

11 março 2007

às 11 e às 11 e meia

sonho por volta das 11 da manhã

ele comprara uma televisão nova: era daquelas grandes, lisa e fina como as que agora aparecem nas propagandas das lojas de electrodomésticos. Era uma televisão como aqueles painéis ou telas e trazia um comando. Bem junto à parede que é pintada a tinta de grão, ele não soubera porém apontar o comando como devia ser e a televisão não se ligava nem por nada. Fui eu depois que saíra do quarto e pus-me a mexer no comando. Os canais começaram a aparecer em códigos ingleses que são os universais, mas não são bem ingleses porque têm números e siglas de estações e frequências multilingues. Nunca percebi nada disso. Era suposto que o comando resolvesse o silêncio e a teimosia escura da televisão. Mas nem assim. Os canais apareciam e desapareciam como quando ou quem envia e apaga sms. E ele comprara a televisão dos seus sonhos, tão elegante que era só vinha dar à sala mais espaço para espalhar os livros, os cinzeiros e os vasos. Ficaram depois os dois agarrados ao comando, um na ponta e o outro na outra. O comando era grande também. Mas a televisão não os ligara.
dsds
sdsdsd
assasas

sonho por volta das 11 e meia da manhã

o amigo dela tinha comprado uma maqueta da cooperativa onde eu vivi e enquanto ela me ia contando isso, subindo a rua, percebi que esse amigo estava a torná-la feliz porque lhe tinha telefonado. Eu não queria que o amigo dela soubesse que a maqueta que ele tinha comprado era da cooperativa onde eu vivi, porque apenas não me apetecia que alguém soubesse como eram as casas e os bancos e as ruas do sítio onde passei parte dos meus primeiros anos de infância. Por isso escondi-me atrás da primeira cabine telefónica que apareceu, porque de repente o seu amigo cruzou-se com ela. Com quase quarenta anos, aquelas calças eram para andar de skate, mas o casaco combinava bem com a t-shirt esverdeada com umas duas riscas amarelas e o cabelo preto mais ou menos espetado também não lhe caía mal. Era um amigo bem parecido até. Ela corou, como quase sempre aliás, e pôs-se a pentear a franja com os dedos para disfarçar talvez algum nervo. Atrás da cabine, eu via isto tudo. O amigo dela trazia também um saco pendurado quase até aos joelhos mas não devia ser pesado, nem sequer a tal maqueta estaria lá dentro e nem muito menos isso teria interesse porque nem ela nem ele têm algum escritório de arquitectura ou uma biblioteca. Pouco depois ele deu-lhe um beijo num dos lados da face, muito perto do vértice do lábio e deve ter sabido bem. Mas três pessoas apareceram no passeio que passava atrás da cabine onde me havia escondido. Uma mãe, um pai e uma criança talvez com quatro anos e por isso mesmo esta criatura pequena deu comigo. Não foi por mal; que bom para nós, adultos, se nos procurássemos e nos encontrássemos assim com tanta espontaneidade. Mas isto não quer dizer que as crianças sejam naturalmente espontâneas e também não era isso que eu estava a pensar naquele momento. Apareci então precipitado, saltando da cabine, assim de rompante “por aqui, passeando, como vão?”, e a minha amiga arregalou-me os olhos e eu arregalei-lhe os meus a seguir. Ficámos os três a comentar por uns minutos a passagem das outras três pessoas e dizendo que a criança era engraçada. O amigo dela, como era muito simpático, até lhe acenou e os prováveis pais adoraram isso. Depois a minha amiga despediu-se do amigo ou ele é que se foi embora e ela ficou só comigo, enxaguando umas ligeiras lágrimas que entretanto lhe saíram dos olhos.
asasas

10 março 2007

Estou sem saber onde. Acho que me estou a lembrar do antónio variações. Mas o que toca e que agora ouço é o patrick wolf. Estou gasto. Tenho a sensação de que tudo vi sem nada ter visto ainda. Não há nomes médicos para isto. Há talvez aqueles nomes que chamamos a nós mesmos para nos castigarmos dos lugares ocos que encontramos nos contornos do corpo. Deitei-me e pus-me a olhar para o tecto. Está lá um ponto qualquer acastanhado, pequeno e semi-rectangular. De certeza que está parado, mas vejo-o a dar pequenos passos como se arrastasse uma cauda. Deve ser um bicho perdido. Não me apetece ir lá vê-lo de perto. Do outro lado da janela há muitas janelas acesas, é sábado. Eu devia estar com umas colunas coladas aos ouvidos e a ouvir uma música qualquer dos human league. A ideia é pirosa, mas é sábado. Tantas luzes ou lâmpadas nas casas do outro lado da janela. Devem estar com as televisões ligadas ou então sem preocupações de gastos com a edp. Se eu soubesse tocar violino ia agora chamar o elevador e punha-me lá dentro a fazer qualquer coisa. Mas tenho pouca força. Houve umas violas e uns baixos e umas gaitas que em tempos já toquei. E faziam parte de um grupo. É boa a ideia de grupo, mas não ao ponto de a querer desejar para sempre. Tenho uma querida amiga que me pôs a ver os felinos na televisão. Foi bom, por cinco segundos. Tenho uma querida amiga que não está na televisão, porque ela queria ser um gato, um gato que casou com uma gata ou o contrário. Parece ser impossível sonhar com grandes coisas. Há miúdos subindo e descendo as ruas de mp3 no bolso. Há miúdas que têm óculos de sol maiores do que as suas caras e todos iguais. Há carrinhos de bebés a entrarem e a saírem dos restaurantes e das praças da alimentação dos shoppings às onze da noite. Estou mas é sem saber onde. Ouço-me agora: toma atenção ao que foges, é da tortura ou a tortura é já o esófago onde os segredos se enrolam. Vamos jogar às escondidas, vamos jogar à bola ou qualquer coisa assim. A evidência que julgo existir não é evidente. Acho que sei sempre falar ou ver a evidência, porque se é evidente deve ser fácil lidar com ela. Além disso, acho que sei sempre lidar com as coisas. L-i-d-a-r: que palavra esquisita para nos referirmos à relação com a vida, como se ela fosse uma lide. É um trabalho existir, sim. Mas é preciso lidar-se com isso, como se lida com uma vassoura ou com o programa da máquina de lavar loiça? Há muitas ruas com sentidos obrigatórios e sentidos proibidos. Quase sempre me engano nos sentidos. Tenho um plano de sentido e até acho que tem de ser bem definido. Afinal, emoção e razão são dilemas velhos. Enche-se um prato com comida, molham-se os lábios e a língua com um sumo ou então com uma água mineral e, pronto, por momentos há um acto cumprido, há uma tarefa que deu sustento ao corpo e devia-se ir dormir como tem de ser. Mas há fotografias a mais espalhadas pelas estantes: três e eu já acho que são muitas. São as mães e os pais, os sobrinhos, amigos e coisas que só estão para estarem em cima do pó. Vou engolir as fotografias todas, metê-las no meio dos cogumelos do jantar e fazer um relatório como se isso fosse uma experiência com ratos. As evidências são para serem lidas como cenários, têm papel, cor, máscaras, roupas, falas, dramas e relações. São então histórias. E nas histórias há hóspedes, malas, velas, livros e jardins. É sábado e vou fazer um refrão para interromper as maldições das histórias. Vai ser um refrão sem estrofe, vai ser uma estrofe sem verso, vai ser um verso sem letra. Só ossos para roer. E brinquedos para lhes tirar as peças. Porque nunca gostei de fazer puzzles. O sábado começou agora.
asass