25 fevereiro 2011

Trabalhos Manuais













Aquele poeta está na televisão
e o seu corpo é um edifício de sombras.
Fala sem metáforas sobre a linguagem da metáfora
que é a sua.
É um discurso de linguagem que para ali o põe,
a si e ao seu prémio,
enquanto eu - de pijama de ontem -
enrolo peúgas ao ritmo daquela oração.
E se um poeta lhe dissesse - não haverá melhor metáfora
para em vez de meias enrolar coturnos?

28 janeiro 2011

Pessoas felizes


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Pessoas felizes são pessoas sem vergonha,
conversam à saída da escola enquanto a tarde acaba
(esses teus jeans caem bem).
Mas é segunda-feira, é sempre segunda-feira
neste país de gente mal amada.
São pessoas sem atalhos, pessoas aqui,
a enganar o sol que tu e eu calamos.

21 janeiro 2011

Medo


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É Janeiro por dentro da quieta e lassa manhã
em que me parto -
vemos agora enquanto a sorte é termos o que partir,
caímos por fim em nós. O fim do medo é poético,
uma coisa que dói num coração inteiro.
Atiramo-nos ao chão, isso faz realmente medo,
não é um poema que o salva.

Os mal-tratados

Eram amantes num tempo em que a formação amorosa se levantava do chão e não queria olhar por nós. Estavam a formar um círculo de muitos amantes, em vez de pensarem só nas águas que do outro lado da noite chegavam para os vigiar em silêncio. Então dormiram em paz, para melhor não deixarem passar esse seu aviso em vão. Lutaram contra os sons que em uníssono voltavam das ruas para de novo os levarem à entrada das coisas, quando a tempestade passasse. Foram amantes na verdade sós, irreconhecíveis para ninguém ver, como se lhes tivessem ateado no corpo o fumo de uma existência eterna. Em Novembro tudo seria diferente, tinham a ideia de ver no Inverno uma mudança de prática, de prática real, sobrevoariam os sonhos esquecidos no tempo, e de cujas tréguas uma voz gritava. Esses amantes de um quarto ancilar, terrível só de entrar, esses amantes agora de um palacete reinante, imbuído num hemisfério de rosas silvestres, esses amantes, pergunto, onde estão, que lhes fizeste tu, monstro de um olho só, tentáculo de um só osso entre pássaros de olhos partidos, tu que vinhas de um negro cru e rouco, do princípio de tudo, que lhes fizeste?

06 julho 2010

Ou um par à minha frente desfeito


Pôs um colar que toda gente menos eu
perceberia que era prata, e ali demiúrgico
era o colar de todos. Eu devia saber falar
sobre as novas cartas portuguesas,
mas o meu olhar desfeito era o seu princípio

«tão momentaneamente importante»

que a mim, embarcando no seu declínio,
me tomou de contramão,
para não falar do jipe parado sobre o passeio
que nos abispenhava o sol
e os demais entardeceres.
Começara assim a história dos que querem
falar dos seus antepassados amantes,
entre imaginações narrativas
que só o cérebro descalça de cada vez que com outro
se encontra,

«é uma merda a arte contemporânea»

mas fez-nos pensar entre a entre-aberta janela
daquela segunda-feira em que o teu colar
era de prata,
a imensidade da qual o tiraste
para sermos a literatura de umas cartas que nunca escrevemos,
ali sonoras.

02 junho 2010

Ou O caso real da escritora que dançava danças de salão


Ela sempre dera valor à vida,
era uma mulher de emoções,
sentia-se uma mulher completa.

Era uma outra mulher que se tinha à frente,
de certeza que iríamos gostar da mulher que dizia
«dançar é dos melhores exercícios que existem»,
mesmo que as lágrimas já não fossem só palavras
como a escrita egoísta que ela dizia que tinha -
uma vida íntima que lhe permitia unir
os separados mundos da sua identidade.

Ela sempre se quis interessar por tudo,
mas a dança era perecível,
e nunca fora discriminada por ser uma escritora
que dançava danças de salão -
ela preza muito a sua liberdade.

Dos seus olhos nascia aquela fé constante
nos leitores, amigos ou simplesmente felizes
um pequeno grupo de jovens talentosos
que enriquecia a vida portuguesa.

29 maio 2010

Ou Neil Young


Começa pela maneira discreta de cantar,
segue-se uma visita ao outro lado da voz -
acendemos cigarros, amanhã ainda é dia de te voltar a ver
...aqui,
um poema diverso
vem ao estilo neil young
e tudo por causa do termo young, aquela arte
contrária à técnica de por a voz que não se tem

é uma sinceridade procurar-te,

menos turva em relação à adolescência de te ver na praia
mas é sombria.
Dizes-me «--------------» (eu a desejar contar-te aqui),
é na verdade um espaço em branco
um fascínio diferente matizado pelo tempo
como se o tivesse posto à venda,
à espera de ver nascer a mesma rima
e um fado barroco a chegar-me de parte incerta,
como é costume. Ocupo-te um lugar estranho
que não faz rimar young comigo
(tudo tão pop no mundo)
mesmo que da rua fujas
e entre as enigmáticas vozes me encontres na opalina dor
...de mim,
a cantar de novo.