30 março 2007

(licantropias)

asas
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asas
que engraçado posso ser a caçar-te
há sempre quem passe e me veja,
talvez nalgum dia possa eu fazer amor à beira mar,
à noite,

é que ainda não fiz, segredava-me.

disseste-me que eu nunca vou saber
o que é ter uma árvore plantada na boca,
largando sementes
nascendo sem rugas
sempre fiel à selvajaria do desejo
e da emboscada, voltou a murmurar.

pena mais tarde teres escrito tudo ao contrário,
sem paixão de beira praia
ou outras obsessões.

sinto cuidado contigo, tens gula a mais.

asas

29 março 2007

(espectros)


asas
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sa
as
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na cama
fica um buraco com riscas
depois de nos levantarmos. pouco dizemos,

e à entrada do sol franzimos a testa. já devíamos ter acordado,
penso.

asas

26 março 2007

(escalenos)

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sou gelo pouco gelado e muito pouco tenho para te aquecer,
acredita nisto. tivemos as nossas alturas,

(nas piores soubemos sempre o que devia ser aquecido?)

e já com os jogos todos na gaveta
estamos grandes,

sem termos crescido quase nada.

fizemos as visitas ao médico, corremos urgências
e lemos histórias na meia lua das horas,
descemos as curvas por entre os ossos
e pingámos as mesas com lágrimas

cuspo
pedaços de unhas partidas
pestanas
e restos de garganta
envelhecida.

asa

24 março 2007

novo método. práticas de exploração

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Ele via o mar por entre dois prédios em construção. Gruas e patas peludas de bichos cobriam as paredes dos dois prédios. Interrogava-se sobre a razão de tais construções apressadas: quase sem tempo para medir o tempo que levavam a ser construídas. Interrogava-se ainda depois sobre a diferença entre o tempo das coisas físicas e o tempo das coisas pensadas, pois em princípio as primeiras não pensam, são resultado de se pensar sobre elas. Correu as janelas para um dos lados e um cão de pêlo manchado, pequeno, corria por entre duas portas abertas. Um gato esconde-se. Subiu o volume do rádio: a terra tinha tremido algures no mundo e muito provavelmente teria assustado centenas ou milhares de pessoas. Estamos todos zangados uns com os outros. Lembrou-se que por volta dos sete anos, perto do depósito do lixo, apontou com os amigos para meia dúzia de estrelas que o céu de verão trazia assim à tona e até à meia noite dessa noite ficou a perguntar-se se algum dia chegaria às estrelas numa volta de bicicleta. Começou aí a exploração de si. De tudo que saberia que era impossível. De querer fé e de saber que isso era impossível de ter. Quis voltar-se para o mar, mas aterrorizado com a ideia de que um dia pudesse ser engolido pelas ondas. Talvez por isso não se aproxime muito da costa. Vai fazendo contemplações à distância, ponderando cada um dos passos, cada um dos seus afastamentos. Mas gosta da água. É capaz de tomar três banhos num só dia. Existem orifícios que gosta que estejam bem limpos, tem a ilusão de uma ossada de vidro, limada e bem parecida, a ideia de ser bem recebido pelas raízes. As temperaturas sobem, ainda cantam as buzinas e as filas de pessoas com sacos nas mãos. Há dias achou que havia descoberto um novo método implacável, novíssimo, para compor textos. Qualquer coisa como alinhar o texto sempre a partir de dois ou múltiplos autores. Soube depois que isso era um intratexto. Gostou de saber isso e da palavra também. Por isso, a ideia que teve baseava-se nas ideias todas que já lhe tinham passado, fisicamente falando e criativamente pensando. “Não posso andar mais com estes sapatos” “a sério?” “ahahahahahahah!”, “achas? Aquilo é que é!” “disseste que tinhas ido lá” “vais deixar cair isso caramba!” “sim, sim” “olha, não tenho este” “é melhor não, é caro” “está gente, não vês? espera!” “vai levantar dinheiro” “posso passar para o outro lado?” “uma gaja cansa-se, meu deus”. Reflectiu um bocado nisto durante quatro cigarros. À volta do fumo faz uma síntese e o resultado é nada. Olha outra vez para o canto do mar. Está sem ondas. Fecha as janelas porque começa a entrar um vento frio. Duvida se o que ouve são mesmo os pássaros ou se é algum efeito sonoro, moderno, do trânsito ou assim. Mas são mesmo os pássaros. Depois concluiu: desde a ideia de que chegaria às estrelas numa volta de bicicleta até aos quatro cigarros de agora, ele não fez mais nada que não seja explorar-se a si mesmo. Como lhe poderiam pedir isso?, perguntou-se enquanto lavava os dentes. Ainda colam as pontas dos dedos, mesmo depois de lavadas. Deve ser um efeito secundário da exploração, a espinha nervosa do questionamento encurralada como um animal dentro de um círculo de fogo. Mas pouco lhe interessava isso. Se tivesse de cumprimentar alguém com um aperto de mão teria o cuidado de não apertar muito talvez. “O que é que vamos matar a seguir em ti”, saiu de casa dizendo.
asas

23 março 2007

a minha mãe é uma monstra

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Com um queixo do tamanho de uma rocha de beira-mar, com sítios onde as pulgas se espetam e escavam a pele, a minha mãe é do tamanho do seu rosto que é monstra. Horrível. Digna de posar numa daquelas feiras de anormais. Tenho medo. Julguei que ela pudesse ser um pouco mais bonita. Servi-lhe uma refeição numa daquelas tigelas de louça gasta para o escuro, sentado num banco de pinho velho. Eu era tão pequeno, ficava com a cabeça pela altura da mesa e por isso precisava de me esticar muito para levar a colher àquela boca meia morta. Depois as mãos. Outras partes do monstro a prenderem-me o olhar, mas o coração também que de tanto bater quase pulava cá para fora. Fui deitá-la a seguir, sentindo as elevações da pele nos seus dedos engarrafados, nos polegares rugosos e pesados. Eu pensava que a minha mãe pudesse ser um pouco mais bonita. Estava um cair de noite azulado, do céu caíam gotas como que de um petróleo pastoso que ia soldando o telhado frágil da casa. Uma cozinha apenas. Uma casa, uma divisão. Uma cozinha que em termos de dimensão se confundia com o tamanho da mesa, obliquamente encostada à parede de pedra preta. Uma fogueira, num canto mais iluminado, e um balcão encostado na outra parede com restos de uma torneira sozinha e uns cacos de plástico com migas de bolachas dentro. A outra parede era a porta, mas não a víamos, embora soubéssemos que era ali que a porta estava. Mas deitá-la no canto que sobrava na cozinha não foi fácil.
asas

22 março 2007

detalhe e frigidez


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Quem não dorme é refém dos barulhos, do ruído que estala dentro. Quem não dorme faz amor com o cosmos, porque é obrigado. Há todo um sistema de vestes compridas que circunda quem não dorme e à mão de contemplar: são os números vermelhos das horas no despertador, os lençóis enrolados e que as mãos arrumam, o ressonar longínquo da vizinha ou do vizinho, as persianas baixas mas a deixarem pequenas brechas para espreitar. Se não se dorme à noite então contempla-se tudo, juntando os pontinhos pretos que aparecem aos olhos fechados como viagem de astronauta. É engraçado como não adormecendo chega um universo apressado a quem está acordado. Desejar dormir é mais do que querer dar descanso ao cérebro. As sinapses continuam todas lá, mesmo quando nos esticamos. Sucedem portanto coisas inimagináveis a quem dorme. São as partes do corpo que se estendem como as antenas dos carros, as palpitações nas pontas dos dedos e das pestanas, o virar talvez violento de costas e barriga. Oníricas: é a primeira palavra no plural que nos vem à cabeça ao pensar em quem dorme. Diz-se que “quem dorme, opera e colabora com o que sucede no cosmos”, desde o desejável ao impensável, desde a quietude à agressão, desde a cor ao escuro.
assas

19 março 2007

(o prazer em repouso é o prazer em desespero)






asas

gritos abrem mestrias e batutas
e palavras fogem dos cálidos dedos das mãos.
por entre versos e reentrâncias
há memória de um lá longe que não se conhece:
só um sítio.

há manhãs escuras prolongadas até às outras
e no bico têm uma esperança mal entendida.
há noites em que um jardim azul te vem provar
e coça-te as pontas
o que tens de invicto.

fazer o quê quando as manhãs são papel-de-químico?

sussurra aqui “sem acordares”, isso,
assim a manhã perdura repete
afigura-se ao sol como uma bandeira desfraldada,

e sobe
subida de frente para uma sujeição que não se percebe.
asas