23 agosto 2013

Das alvuras, ou “a melancolia das malas” (subtítulo emprestado de J. Cortázar)


















Fui atrás, por um dia ou dois,
(era Verão, como agora)
daquela cor bamboleante
que flutua numa nuvem encarnada.
O cair lunar, nesse dia ou dois,
foi para sacudir a palavra vaga e rastejante
da minha ténue espertina.
Voltei na sombra e no cansaço da vaga,
como na chegada a um ventre,
respirando-a com toda a força.
E entre a palavra azul da praia
repeti inúmero esse verbo à solta que é perguntar.
Roubei estâncias a um futuro da mão,
vestígios de textos incapaz de ler ou escrever.
Na procura
tudo é definitivamente lixo.

12 agosto 2013

Requerimento para existir II (ou a tomada de consciência de K., em Der Prozess)

















Ele pode compreender todas as coisas
mas isso não significa que as interprete
à luz das formas e dos escritos.
Um homem esperou até morrer,
e ele, enquanto morria num sulco achado nas pedras,
ainda sentiu horizontar alguém
numa janela em frente diante de si.

Saber que se vai morrer é diferente,
mesmo num qualquer sentido literário da peça.
Ao saber que iria morrer, como ele, isso tornou-o inocente,
e quem o levara à morte
mais não fez do que num oceano parado
levá-lo a pintar um quadro de cavalos iluminados.

Ele foi seco e obstinado sem razão de o haver ser,
e porém
todas as culpas recaem na liturgia das sombras,
paralelas desde o levantar da cama.

A tomada de consciência do Processo acontece
naquele pequeno sulco,
fora de todos os púlpitos. Não foi desistência,
muito menos astúcia.
Foi morrer como em casa e no trabalho,
a pena que diariamente lhe acontecia,
ausente de um descanso à espera.

29 julho 2013

Proust e o deserto (por volta de 1978)


















Proust encontrava-se numa outra direcção quando chegou ao deserto. Não a direcção de um troço ou de uma rota inscrita em si. Era a direcção que o próprio deserto tomara quando pela primeira vez o viu chegar. Então seguiu, ciente da passagem que lhe pesava a sombra, cerrando os olhos de cada vez que a oblíqua luz do sol se enevoava no ar. Entretanto, recordava-se de um sonho passado algures entre uma fronteira, com montanhosas pedras de ambos os lados. O barqueiro, que de um dos lados lhe acenara, alardeava o corpo entre seduções e melopeias descendentes. Proust percebeu, no seu próprio sonho, que desse lado da fronteira o barqueiro conflagrava entre as sombras e os lugares em aberto nas montanhosas pedras. Era um sonho, muito embora aparentemente simbólico dentro da maneira de Proust pensar enquanto sonhava. Do outro lado imaginava um oposto, um corpo cujo balanço captasse as formas vivas do seu desejo. Mas desse outro lado, sem paralelo, avistara uma linha recta, um imenso espaço ligeiramente avermelhado e sem nada. Este lado, pensou para si durante o sonho, não parece ter princípio nem fim. Mas isso, essa visão, não o deixara sossegado. Ele vira no sonho como podem dois opostos nada opor entre si, e desacreditou-se da dialéctica. Levantava agora a cabeça e a luz branca do sol em cima continuava a cegar-lhe os passos. No deserto Proust perdia com frequência o sentido da razão, porém continuaria a caminhar pela realidade fora.

(fotografia de Peter Keetman, 1953)

11 julho 2013

Preciso recuperar o fogo enquanto o meu computador arranca



















Em quantas línguas se traduz
a parte do sangue que não corre
e repassa só, baixinho?
Não te vás assim, ó sangue,
sem a mim me levares à voz quente
dos entornos,
e se existir apenas um só modo de ma mostrares
eu aceito viver essa onda.

17 maio 2013

Requerimento para existir (ou a acusação de K. em Der Prozess)



Ele passa o tempo entre nostalgias
de cuja separação, entre si, vê erguer-se
aquela forma de árvore
da qual todos lhe dizem surgir o revestimento
das formas.

Ele tem igualmente uma música predilecta.
Poder-se-ia dizer que um demónio lhe come a carne
mas ele estala a mão e diz “jazz”.

Façamos de conta que o vento não lhe convém,
e então, como homem e ser,
a sua passagem é só absolutamente visual
sem quaisquer elementos de sintaxe.

Mas uma vez que ele é um homem cuja palavra
é de outrem,
o seu trajecto é motivar uma vida inteira
sem dela requerer um objecto,
e ele diz
“o meu requerimento é eterno”,
e dele apenas o eco de uma sentença
impossivelmente justa.

17 abril 2013

A primavera das aranhas
















Abril chegou por fim
e ele forma no Universo inteiro
aquela teia donde as aranhas se levantam
contra a sombra da passada noite.

Em bloco, num derradeiro e sólido bloco,
erguem-se do chão em gigantesco passo,
cobrindo as ruas e as pequenas casas
de janelas vagas para os pássaros.

Eu havia fechado, em primeiro lugar,
a porta da frente, a principal porta.
Mas esqueci como pode uma janela
ser assim visitada por este abril ignaro
e rastejante, lançado à vida e às suas formas.

Então olhei, e surgindo do horizonte
vi nascer o violáceo céu das aranhas
de todos os bichos de uma nova era.
Não mais, como antes, apareceram diante de mim
as humanas formas de abril,
como um sonho. 

16 abril 2013

Cordas















Um écran escuro de dentro da voz
e as plantas no azul escuro podiam cantar horas a fio,
seriam elas a cantar-te de novo
enquanto submersas fossem um amor de agora,

esse écran é como um fio de câmara
levíssimo,
cuja corda é tão coesa entre as alturas,

é tão estranho esse teu tom de voz
são horas a fio onde eu o escuto.