21 janeiro 2011

Os mal-tratados

Eram amantes num tempo em que a formação amorosa se levantava do chão e não queria olhar por nós. Estavam a formar um círculo de muitos amantes, em vez de pensarem só nas águas que do outro lado da noite chegavam para os vigiar em silêncio. Então dormiram em paz, para melhor não deixarem passar esse seu aviso em vão. Lutaram contra os sons que em uníssono voltavam das ruas para de novo os levarem à entrada das coisas, quando a tempestade passasse. Foram amantes na verdade sós, irreconhecíveis para ninguém ver, como se lhes tivessem ateado no corpo o fumo de uma existência eterna. Em Novembro tudo seria diferente, tinham a ideia de ver no Inverno uma mudança de prática, de prática real, sobrevoariam os sonhos esquecidos no tempo, e de cujas tréguas uma voz gritava. Esses amantes de um quarto ancilar, terrível só de entrar, esses amantes agora de um palacete reinante, imbuído num hemisfério de rosas silvestres, esses amantes, pergunto, onde estão, que lhes fizeste tu, monstro de um olho só, tentáculo de um só osso entre pássaros de olhos partidos, tu que vinhas de um negro cru e rouco, do princípio de tudo, que lhes fizeste?

06 julho 2010

Ou um par à minha frente desfeito


Pôs um colar que toda gente menos eu
perceberia que era prata, e ali demiúrgico
era o colar de todos. Eu devia saber falar
sobre as novas cartas portuguesas,
mas o meu olhar desfeito era o seu princípio

«tão momentaneamente importante»

que a mim, embarcando no seu declínio,
me tomou de contramão,
para não falar do jipe parado sobre o passeio
que nos abispenhava o sol
e os demais entardeceres.
Começara assim a história dos que querem
falar dos seus antepassados amantes,
entre imaginações narrativas
que só o cérebro descalça de cada vez que com outro
se encontra,

«é uma merda a arte contemporânea»

mas fez-nos pensar entre a entre-aberta janela
daquela segunda-feira em que o teu colar
era de prata,
a imensidade da qual o tiraste
para sermos a literatura de umas cartas que nunca escrevemos,
ali sonoras.

02 junho 2010

Ou O caso real da escritora que dançava danças de salão


Ela sempre dera valor à vida,
era uma mulher de emoções,
sentia-se uma mulher completa.

Era uma outra mulher que se tinha à frente,
de certeza que iríamos gostar da mulher que dizia
«dançar é dos melhores exercícios que existem»,
mesmo que as lágrimas já não fossem só palavras
como a escrita egoísta que ela dizia que tinha -
uma vida íntima que lhe permitia unir
os separados mundos da sua identidade.

Ela sempre se quis interessar por tudo,
mas a dança era perecível,
e nunca fora discriminada por ser uma escritora
que dançava danças de salão -
ela preza muito a sua liberdade.

Dos seus olhos nascia aquela fé constante
nos leitores, amigos ou simplesmente felizes
um pequeno grupo de jovens talentosos
que enriquecia a vida portuguesa.

29 maio 2010

Ou Neil Young


Começa pela maneira discreta de cantar,
segue-se uma visita ao outro lado da voz -
acendemos cigarros, amanhã ainda é dia de te voltar a ver
...aqui,
um poema diverso
vem ao estilo neil young
e tudo por causa do termo young, aquela arte
contrária à técnica de por a voz que não se tem

é uma sinceridade procurar-te,

menos turva em relação à adolescência de te ver na praia
mas é sombria.
Dizes-me «--------------» (eu a desejar contar-te aqui),
é na verdade um espaço em branco
um fascínio diferente matizado pelo tempo
como se o tivesse posto à venda,
à espera de ver nascer a mesma rima
e um fado barroco a chegar-me de parte incerta,
como é costume. Ocupo-te um lugar estranho
que não faz rimar young comigo
(tudo tão pop no mundo)
mesmo que da rua fujas
e entre as enigmáticas vozes me encontres na opalina dor
...de mim,
a cantar de novo.

12 maio 2010

Ou primeira vez
















Deixaste-me na pele uma rota
desenhada pela tua - tão menos obscura,
agora que a violência nua deste poema
é o seu traço. Hoje essa rota é estar em ti
porque me lembro dela em mim: tão arriscada
fora a sombra, como se o mistério
mais não fosse ter-te ao pé de mim,
ver o que já tinha visto. Mas a voz era esse fio
no qual caí, suspenso por um braço
que de noite me rendia o ar e no regresso
me trazia outra pessoa. Deixaste-me essa rota
inscrita em prosa, cheia de vida num lugar
depois levada por um rio,
tão plena no seu percurso.

11 maio 2010

My healing friend


(para Ana Luísa Amaral)


Curar com as mãos
em absoluto silêncio -
it's wonderful, ele diz
all my happiness está em passar o túnel
nunca como antes eu quis isto aaaamudar
dar um passo sem ver a terra
embrulhar-me, desistir ou aprender,
que o tempo seja

Ele diz-me isto em absoluta mudez,
he's the greatest não porque o poema
o diz, é a cat power a soar na coluna
no meio da soltura verbal
e o café entardecendo

Em matéria de curas somos sinais voláteis -
crises como peixes em cardume,
só falsamente sozinhos. Por isso, ele traz umas luvas
de escamas que abandona na mesa
e começa a discorrer (e eu ali parado vindo
das conexões ocultas que lhe devolvi em livro)

Não via o meu amigo há imenso,
metade de um ano não chega:
it was an empty shell, o meu verão
o meu luto.

10 maio 2010

2003
















Podia morrer aqui -
à boca de casa, um animal inteiro
atravessado de espinhas
e de insectos,
um vale dormente, uma chuva.
Tenho a porta presa ao chão: não quero o risco
de querer sair e de novo andar por esses sítios
de arpoantes voos - uma outra casa
que mesmo assim longínqua
me conhece e comigo acorda.