11 maio 2010
My healing friend
(para Ana Luísa Amaral)
Curar com as mãos
em absoluto silêncio -
it's wonderful, ele diz
all my happiness está em passar o túnel
nunca como antes eu quis isto aaaamudar
dar um passo sem ver a terra
embrulhar-me, desistir ou aprender,
que o tempo seja
Ele diz-me isto em absoluta mudez,
he's the greatest não porque o poema
o diz, é a cat power a soar na coluna
no meio da soltura verbal
e o café entardecendo
Em matéria de curas somos sinais voláteis -
crises como peixes em cardume,
só falsamente sozinhos. Por isso, ele traz umas luvas
de escamas que abandona na mesa
e começa a discorrer (e eu ali parado vindo
das conexões ocultas que lhe devolvi em livro)
Não via o meu amigo há imenso,
metade de um ano não chega:
it was an empty shell, o meu verão
o meu luto.
10 maio 2010
2003
23 abril 2010
7.7.2007

Inclinas esse canto da boca
como um quadrado em transe.
Perdes cada um dos lados,
ou deixo cair as linhas rectas
ou deixo cair as linhas rectas
entre o nosso olhar de cítara.
Fechas as mãos
naquela pausa dos assuntos honestos,
enquanto eu me distraio com o pequeníssimo bailado na cortina.
À condenação que se nos impôs
oferecemos estes dois corpos,
moles de geometria,
trazendo as areias de banhos outrora doces
gemendo de parir palavras.
24 março 2010
Sem título
23 fevereiro 2010
Ou a natureza
Era no meu vinho que eu estava a pensar desde o princípio.
O resto foi descoser histórias, repetindo-as, entre os lugares do Verão.
A idade moderna deixa-nos fazer isto mais vezes, descoser o verão;
são contudo menos as vezes pelas quais pensamos no vinho.
Mas acontecem três coisas: o doce assobio da infância, o segredo descoberto,
a descida até às mãos vagas. Quis pensar no vinho vinte e três vezes,
entre a consciência e o romance, mas as razões práticas do seu sabor
vieram avisar-me de qualquer coisa pessoal e animal. Ora,
que Fevereiro este: veio para nos querer repetir a idade de outrora,
devem ser as saudades. A melhor tradução disso talvez sejam as horas,
não as vermos, só que o seu efeito é rotativo. Bebamos do físico miar
da volta ao mundo, ali enquanto voltamos à bebida,
e dos prazeres esquecidos um problema de novo perdido.
04 janeiro 2010
Ou um mês

Foi muito púrpura ver-te sorrir no meio
dos armários vintage
e dos copos alface de onde nos vinham
as maçãs e o açucar. Foi muito elegante
tudo o resto, antes sequer de ter acabado:
eu pensei que só se nascia uma vez.
Vamos por partes, tu um esquema que ainda guardo
como se fosse a primeira nave
que desceu na lua - como se vê, a tender
para o infinito - uma hora que foi realmente
urbana para mim. Eu passo muito tempo
a pensar se sou moderno, nós éramos uma cor,
eu pensei que só se nascia uma vez.
Aquela sobriedade do Porto foi muito labial
no sentido em que tocaste cada um dos degraus
da eterna música, que já não é som
é arquitectura, é carne, vírus.
Foi muito felino tudo aquilo que o resto fez,
rompem os tambores e pouco interesse há
em distinguir se viemos hoje,
por isso eu pensei que podia nascer outra vez
em dois sítios só, ou num só.
Ou dos que vigiam
Eles andam atrás dos gaiteiros,
dos que andam à cata de álcool entre a meia-noite
e as sete.
E é tudo bastante triste, é suposto que a madrugada
seja um enorme g onde todos os vícios caibam:
diz-me porquê? Passam os senhores da lei
e as viaturas abrandam enquanto lá dentro
há um corpo que se desterra, as tuas mãos
o meu ventre agoniado, é como se agora e para sempre
estivesse na nonagésima página de um cigarro
que é este texto,
e durante ti Janeiro implodisse concretamente.
Eles dizem ler o aviso,
está tarde, faz frio, vão para casa que este vinho
não é de beber: malditos gaiteiros que chegam às desoras.
Não se explica esta coisa de o coração vigorar
porquanto a vigia que o nota,
são cem os alfabetos que pela noite batem
e a velocidade que a rua traça. E falam
por causa dos estranhos que conhecem às escuras,
como se esperassem que nenhum outro
os detivesse pela sombra, fazem-se eleitos
pregando truques à miséria que os recolhe.
dos que andam à cata de álcool entre a meia-noite
e as sete.
E é tudo bastante triste, é suposto que a madrugada
seja um enorme g onde todos os vícios caibam:
diz-me porquê? Passam os senhores da lei
e as viaturas abrandam enquanto lá dentro
há um corpo que se desterra, as tuas mãos
o meu ventre agoniado, é como se agora e para sempre
estivesse na nonagésima página de um cigarro
que é este texto,
e durante ti Janeiro implodisse concretamente.
Eles dizem ler o aviso,
está tarde, faz frio, vão para casa que este vinho
não é de beber: malditos gaiteiros que chegam às desoras.
Não se explica esta coisa de o coração vigorar
porquanto a vigia que o nota,
são cem os alfabetos que pela noite batem
e a velocidade que a rua traça. E falam
por causa dos estranhos que conhecem às escuras,
como se esperassem que nenhum outro
os detivesse pela sombra, fazem-se eleitos
pregando truques à miséria que os recolhe.
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