24 março 2010

Sem título













Sinto-a chegar,
a mania vem calada, sorrateira,
primaveril e sozinha como uma lagarta
escondida. As manias não despegam,
mas enquanto laboram ficam tão normais,
querem ir morrer de manhãzinha. Eu vivo contra a mão,
contra o peito e contra a boca
e contrario a forma e o inferno,
eu sei que tento.

23 fevereiro 2010

Ou a natureza


Era no meu vinho que eu estava a pensar desde o princípio.
O resto foi descoser histórias, repetindo-as, entre os lugares do Verão.
A idade moderna deixa-nos fazer isto mais vezes, descoser o verão;
são contudo menos as vezes pelas quais pensamos no vinho.
Mas acontecem três coisas: o doce assobio da infância, o segredo descoberto,
a descida até às mãos vagas. Quis pensar no vinho vinte e três vezes,
entre a consciência e o romance, mas as razões práticas do seu sabor
vieram avisar-me de qualquer coisa pessoal e animal. Ora,
que Fevereiro este: veio para nos querer repetir a idade de outrora,
devem ser as saudades. A melhor tradução disso talvez sejam as horas,
não as vermos, só que o seu efeito é rotativo. Bebamos do físico miar
da volta ao mundo, ali enquanto voltamos à bebida,
e dos prazeres esquecidos um problema de novo perdido.

04 janeiro 2010

Ou um mês

















Foi muito púrpura ver-te sorrir no meio
dos armários vintage
e dos copos alface de onde nos vinham
as maçãs e o açucar. Foi muito elegante
tudo o resto, antes sequer de ter acabado:
eu pensei que só se nascia uma vez.
Vamos por partes, tu um esquema que ainda guardo
como se fosse a primeira nave
que desceu na lua - como se vê, a tender
para o infinito - uma hora que foi realmente
urbana para mim. Eu passo muito tempo
a pensar se sou moderno, nós éramos uma cor,
eu pensei que só se nascia uma vez.
Aquela sobriedade do Porto foi muito labial
no sentido em que tocaste cada um dos degraus
da eterna música, que já não é som
é arquitectura, é carne, vírus.
Foi muito felino tudo aquilo que o resto fez,
rompem os tambores e pouco interesse há
em distinguir se viemos hoje,
por isso eu pensei que podia nascer outra vez
em dois sítios só, ou num só.

Ou dos que vigiam

Eles andam atrás dos gaiteiros,
dos que andam à cata de álcool entre a meia-noite
e as sete.
E é tudo bastante triste, é suposto que a madrugada
seja um enorme g onde todos os vícios caibam:
diz-me porquê? Passam os senhores da lei
e as viaturas abrandam enquanto lá dentro
há um corpo que se desterra, as tuas mãos
o meu ventre agoniado, é como se agora e para sempre
estivesse na nonagésima página de um cigarro
que é este texto,
e durante ti Janeiro implodisse concretamente.
Eles dizem ler o aviso,
está tarde, faz frio, vão para casa que este vinho
não é de beber: malditos gaiteiros que chegam às desoras.
Não se explica esta coisa de o coração vigorar
porquanto a vigia que o nota,
são cem os alfabetos que pela noite batem
e a velocidade que a rua traça. E falam
por causa dos estranhos que conhecem às escuras,
como se esperassem que nenhum outro
os detivesse pela sombra, fazem-se eleitos
pregando truques à miséria que os recolhe.

26 dezembro 2009

Ou Behrenstrasse

Manhãs, Berlim, que dos olhos não vêem,
isto é ser um pé, é andar de olhos calados:

façamos do pé uma fenda, são cadáveres
as pedras que piso.

Dia um, dia dois, dia três,
tudo antes hoje por agora, que matar pássaros
é só dizer mein gott por cada tiro, mein gott
por cada porta.

Silêncio, que vimos num T1,
eu, tu e muitos mais: é um traçado,
um esquilo, um canhão em alto-mar.

06 novembro 2009

Ou Ainda assim

É por dentro que as imperfeições são
estes buracos ocos
que de tão ocos escondem sombras
divididas secadas por entre
desvios traços. A arte é querer ver por essa
forma, ter um olho tocado pela mão
do tempo
e na sua crença sentir um passo em frente.
Ainda assim mais fácil era ter à mão
aquele caderno a duas linhas
o imperfeito dentro apenas naquele traçado,
infinito
sem destino. Quase tudo é cansativo
perante a obra, é dada já perfeita
em mim nenhuma ideia.

22 outubro 2009

Ou o Leitor à Janela

Sinto-me abraçado às folhas de Outono
um corpo prestes a secar junto à ameaça
das nuvens. Conheço-me, por contraste,
na água fria que escorre das matas,
é quarta-feira, e a pastelaria não abre.
O pequeno centro hoje encolhe-se,
desaparece num indefinido espelho
familiar como sempre no ruído glacial
das marchas. Em casa, chegado da rua,
é como se lhes estivesse a pedir perdão.