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Sinto-a chegar,
a mania vem calada, sorrateira,
primaveril e sozinha como uma lagarta
escondida. As manias não despegam,
mas enquanto laboram ficam tão normais,
querem ir morrer de manhãzinha. Eu vivo contra a mão,
contra o peito e contra a boca
e contrario a forma e o inferno,
eu sei que tento.
Era no meu vinho que eu estava a pensar desde o princípio.O resto foi descoser histórias, repetindo-as, entre os lugares do Verão.A idade moderna deixa-nos fazer isto mais vezes, descoser o verão;são contudo menos as vezes pelas quais pensamos no vinho. Mas acontecem três coisas: o doce assobio da infância, o segredo descoberto,a descida até às mãos vagas. Quis pensar no vinho vinte e três vezes,entre a consciência e o romance, mas as razões práticas do seu saborvieram avisar-me de qualquer coisa pessoal e animal. Ora,que Fevereiro este: veio para nos querer repetir a idade de outrora,devem ser as saudades. A melhor tradução disso talvez sejam as horas, não as vermos, só que o seu efeito é rotativo. Bebamos do físico miarda volta ao mundo, ali enquanto voltamos à bebida,e dos prazeres esquecidos um problema de novo perdido.
Foi muito púrpura ver-te sorrir no meiodos armários vintagee dos copos alface de onde nos vinhamas maçãs e o açucar. Foi muito elegantetudo o resto, antes sequer de ter acabado:eu pensei que só se nascia uma vez.Vamos por partes, tu um esquema que ainda guardocomo se fosse a primeira naveque desceu na lua - como se vê, a tenderpara o infinito - uma hora que foi realmenteurbana para mim. Eu passo muito tempo a pensar se sou moderno, nós éramos uma cor,eu pensei que só se nascia uma vez.Aquela sobriedade do Porto foi muito labialno sentido em que tocaste cada um dos degrausda eterna música, que já não é somé arquitectura, é carne, vírus.Foi muito felino tudo aquilo que o resto fez,rompem os tambores e pouco interesse háem distinguir se viemos hoje,por isso eu pensei que podia nascer outra vezem dois sítios só, ou num só.
Eles andam atrás dos gaiteiros,
dos que andam à cata de álcool entre a meia-noite
e as sete.
E é tudo bastante triste, é suposto que a madrugada
seja um enorme g onde todos os vícios caibam:
diz-me porquê? Passam os senhores da lei
e as viaturas abrandam enquanto lá dentro
há um corpo que se desterra, as tuas mãos
o meu ventre agoniado, é como se agora e para sempre
estivesse na nonagésima página de um cigarro
que é este texto,
e durante ti Janeiro implodisse concretamente.
Eles dizem ler o aviso,
está tarde, faz frio, vão para casa que este vinho
não é de beber: malditos gaiteiros que chegam às desoras.
Não se explica esta coisa de o coração vigorar
porquanto a vigia que o nota,
são cem os alfabetos que pela noite batem
e a velocidade que a rua traça. E falam
por causa dos estranhos que conhecem às escuras,
como se esperassem que nenhum outro
os detivesse pela sombra, fazem-se eleitos
pregando truques à miséria que os recolhe.
Manhãs, Berlim, que dos olhos não vêem,isto é ser um pé, é andar de olhos calados:façamos do pé uma fenda, são cadáveresas pedras que piso.Dia um, dia dois, dia três,tudo antes hoje por agora, que matar pássarosé só dizer mein gott por cada tiro, mein gottpor cada porta.Silêncio, que vimos num T1,eu, tu e muitos mais: é um traçado,um esquilo, um canhão em alto-mar.
É por dentro que as imperfeições sãoestes buracos ocosque de tão ocos escondem sombrasdivididas secadas por entredesvios traços. A arte é querer ver por essaforma, ter um olho tocado pela mãodo tempoe na sua crença sentir um passo em frente.Ainda assim mais fácil era ter à mãoaquele caderno a duas linhaso imperfeito dentro apenas naquele traçado,infinitosem destino. Quase tudo é cansativoperante a obra, é dada já perfeitaem mim nenhuma ideia.
Sinto-me abraçado às folhas de Outonoum corpo prestes a secar junto à ameaçadas nuvens. Conheço-me, por contraste,na água fria que escorre das matas,é quarta-feira, e a pastelaria não abre.O pequeno centro hoje encolhe-se,desaparece num indefinido espelhofamiliar como sempre no ruído glacialdas marchas. Em casa, chegado da rua,é como se lhes estivesse a pedir perdão.