25 agosto 2007

transformações


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onde eu gostava de estar é onde dormes
aí bem dentro dos teus barulhos
e adormecer assim como um menino
tipo a imitar jesus.
asas

03 agosto 2007

verão

[cronómetro 0:00]
vinte minutos, pouco mais
do que vinte minutos,
são pessoas, muita gente passando
trazem decotes e cortes de cabelo
brincam ao verão
e têm cor.

vinte minutos, pouco mais
do que esta meia hora,
são passeios, um ruído de ferro
e mais de quinhentos telefones
tocando, pego no meu
é engano.

são apenas vinte, pouco antes
deste fim de tarde,
são quiosques de ouro olhando
p’a quem passa
quatro cães sinistros
e raparigas a mais.

[cronómetro: devia estar em veneza]
tenho vinte minutos, não mais,
é muito para esta
dor de cabeça
fazer de mim férias
encostar-me por fim à cadeira
adormecer de jornal fechado.

asas

02 agosto 2007

o filho único


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A mãe dera à luz. E sentia-se visivelmente feliz com o futuro. Certo dia, perguntou-lhe o filho: “Mãe, eu sou bonito?”, “Claro que sim”, respondeu-lhe a mãe com uma voz afiada. Passaram-se alguns dias e o filho continuava a pensar na pergunta que fizera. Diversas vezes dava conta de si sentado no sofá a lembrar-se do som da voz da mãe. Numa outra altura resolveu dizer-lhe: “Mãe, o Sr. Franz Kafka teve onze filhos e nem todos saíram bonitos.”, e tinha algum ar de tristeza nos lábios quando terminou de falar. A mãe olhou para ele com muita atenção e disse como quando se vai dizer uma coisa apenas uma vez: “Mas tu és o filho mais bonito que existe.”. Voltaram-se a passar mais alguns dias e durante esse tempo o filho teve sonhos onde ouvia tiros de vidro e um eco longínquo como que saindo de um búzio muito gigante. Enquanto via a mãe deitada na cama imaginava como teria sido viver dentro dela. Enquanto via a mãe a falar com uma amiga imaginava como a amiga pensaria na sua mãe com um filho dentro dela. Enquanto via a mãe de volta de um livro imaginava como seria a sua vida se nunca tivesse tido o filho. Enquanto via a mãe doente imaginava o que teria acontecido se a mãe não fosse medicada ou se a mãe tivesse escolhido ser outra coisa qualquer. Por isso, voltou a dizer-lhe: “Mãe, eu sou bonito? Desculpa perguntar outra vez.”, “Não há dúvida que és o filho mais bonito”, disse-lhe ela com ar de felicidade momentânea. Mas o filho voltava a observar a mãe enquanto ela vestia e despia o avental, enquanto entrava e saía da casa, enquanto se perfumava e enquanto ria e chorava. Depois, num outro dia, perguntou-lhe “Eu sou o filho ou o rapaz mais bonito?” e a mãe respondeu-lhe “Todos os rapazes são bonitos”. Então o filho decidiu dedicar-se ao mergulho para não pensar mais em coisas deste género. Enquanto mergulhava ouvia sempre outras vozes. Enquanto estava debaixo do mar imaginava estar debaixo da barriga da mãe. Enquanto mergulhava sentia que não podia respirar, uma vez que não podia haver ar onde havia vida a nascer.
asas

26 julho 2007

gabriel

quando eu tiver sessenta anos
vou ter achas incolores
descendo pelo rosto,
e uns dedos azuis
cuja longevidade
estará além dos livros
e da fé.
vou deixar de marcar encontro
com os poetas
e de escrever mais do que uma carta
à mulher que um dia já morreu.
vou ser pai e avô
a velha ama da literatura
que macia lhe limpa o pó,
perscrutando a mania
adolescente dos meus filhos
e das suas namoradas.

asas

13 julho 2007

a comuna


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Somos a comuna, o grupo restrito dos que sorvem as palavras como jovens cabritos à espera do banquete. Somos a escondida tribo da cidade de chuva, das ruelas enfeitadas de Carnaval com nomes de santos. Somos os vestígios da última prática escritural, os que metem as normas e as línguas na grande taça de vinho. Somos pares, temos tempo para por agora sermos pares. Pagámos e quisemos pagar por isso. Somos o castigo de escrever, a punição que rola pelo nosso corpo acima. E somos um só corpo na palavra do pão e do sangue, o poema que virou hóstia, a fábrica que virou janela sobre a criação. Temos agora um templo para orar, só para descalçar por dentro o que de divino nos tocou, para estripar o eco num vasto nada que nos comeu a alma. Somos a grande apoteose, a aguarela das profissões e dos ofícios que carregamos em cima, a pedra que temos de levar às costas até ao chão voltarmos. E somos ainda a moderníssima esperança da dor, a criança fugindo do escuro ao unir os estranhos laços de uma nova era. Somos o culto, a capa da revista, a primeira montra dos quiosques, a histeria repentina dos gatos, o rumor da mão sobre o invencível canto do real. E teremos tempo, teremos tempo para celebrar a reunião da esguia noite. Tão cheia de promessa. Tão concreta de alimento, tão molhada de doce vida e diferente. Somos o movimento do lânguido suor inteiro, trocando manias e instruções, pequenas migalhas do universal texto que fizemos. E somos cada uma das índias que ainda não vimos. Dizemos por fim: somos a mesa que branca se compõe em quase silêncio, a entreaberta porta de onde chegam os húmidos passos, a grande decisão da existência. Seremos para sempre o momento único, o futuro que agora é, a experiência temporária de todos os passados.
asas

03 julho 2007

foram passando as tardes


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Às quatro da tarde estivemos a olhar para o relógio, eu já cansado, tu já mais ansiosa, mas era normal. Às quatro e um quarto da tarde trocámos cartas e dissemos que as orquídeas estavam ainda mais brancas. Visitámos aquele santuário de flores às quatro e meia . E não havia século dezanove que nos pudesse contrariar as entranhas. Às cinco menos um quarto começámos a rasgar duas cartas e lágrimas ficariam para sempre gravadas no banco onde parámos. Tu pousaste os ombros sobre o meu colo e eu disse-te que estava cansado. Às cinco da tarde o resfriar do entardecer dava de si. Era quase Dezembro. Passámos seis minutos virados de frente para o jardim aberto de branco e queríamos ter falado. Mas o horizonte ia descendo escuro numas evanescentes rochas. Às cinco e meia da tarde havíamos secado ambos os cantos da boca. Tínhamos estado em silêncio, tu já meia adormecida, eu quase nervoso. E às cinco menos um quarto desta tarde ainda me torturava um bruxedo qualquer. Enroscámos os dedos num fechado nó e soubemos ver que com a noite apagámos as mãos. Às seis da tarde estivemos a olhar para uma das mais compridas vagas do infinito mar.
asas