01 junho 2008

Aprontamentos


Era preferível que nós pudéssemos escrever
sobre as boas sensações da noite.
O que parece ser essencial
é a noite de olhos postos sobre quem passa,
sem juízo. Vou só gostar desta noite
como se não quisesse ter outro dia para ver,
é só disto que os planetas se fazem
e os rios. Era preferível ter sempre esta idade
nas coisas, comigo é mais fácil viver
com a imediatez dum trago,
um puxar leve de algibeira
o sopro das estrelas barulhentas.
Temos estado a disfarçar o que nos impele,
somos uns homens castanhos
que se perderam ao acordar das palavras,
vamos buscar aos animais
um fundamento estiolado. Cada vez mais,
hoje ou nunca, deve ser preferível falar
sem fazer segredo da meia cidade que corre.

asas

27 maio 2008

4















Há quem tema a magnitude
e que segure os óculos enquanto diz
a glória assusta,
quer ser minimal portanto e isentar-se
do pré-criado. Mas eu duvido dos ateus,
e não só por serem chatos. Custa-me
não desdizer dos crentes, como se eu
pudesse ter por certo o negro abismo das coisas
e assim fazer segredo
esta maneira de ver na literatura
a condição dos mais ausentes.

10 maio 2008

Cães















Vendo bem não se ouvem passos
ninguém caminha até nós.
Hoje é uma manhã de Maio
e pelos passeios vão as modernas coisas
que um dia aqui nos viram. Em todo o caso
discutimos ainda o sítio das letras
o que fizemos e começámos,
preenchemos o chão. Olhando a idade dos cães
guardamos as mãos
quase nada guardámos para agora largar
e estes livros que lemos
já só são de enfeitar.
A rota é mínima
passar por nós é longe.


(Pintura, José de Guimarães, 1995)

15 abril 2008

Furtos





















A cidade rebela-se e tu nela
o seu tamanho é difícil de medir —
há bairros por espiar
e os buracos das formigas
estão tapados, precisas de um plano.
Imagino a luz dos teus amigos em ti sentada
e como candente
a engoles em contrabaixo.
Abandonas a rua
consta raro este tempo que temos,
foge-te a sexualidade das coisas
uma por uma mas não mexem.
Quando voltas é grave o verão,
queres mar: discutir mar no feminino
entre ter que o cruzar.
Encontras novos piratas em casa,
em coro mais tarde

ansiavam por ti.

11 abril 2008

Velhos





















Os cigarros pequenos ficam bem nas mãos
dos velhos
porque há uma diferença em ter nas mãos
um certo cigarro,
jamais os velhos fumam leveza a fingir que fumam.
os cigarros dos velhos têm de ser de prata
de um cinza urbano que a língua já não lembra
guardam-se no bolso e ninguém sabe,
são mais de um.
um velho a fumar cigarros muito brancos
não ensina nada
porque o que queremos é que seja velho
e que não disfarce o gosto de cada fumo.
estes velhos que ainda fumam
são duvidosos e serenos, têm no braço
o recreio das esfinges e voltam a aparecer
quando passamos

18 março 2008

Translação


O tom do verso
é como o tom da pele –
e o tom da pele
é mais doutro do que meu,
pode isso ter um corpo?
porque este verso bate as asas
são desse corpo que não sei
e desperto dum embotado sono
desde que a mim me conheceu

01 março 2008

Possessão


Erremos as letras
as primeiras visões do dia
deixemos o aconchego dos escravos —
chamemos a graça
do seu difícil género:
é preciso estarmos calados
muito
porque durante a tarde vamos ferver
estas paradas águas e que sejam
do inquestionável juízo enfim
caídas