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Há quem tema a magnitude
e que segure os óculos enquanto diz
a glória assusta,
quer ser minimal portanto e isentar-se
do pré-criado. Mas eu duvido dos ateus,
e não só por serem chatos. Custa-me
não desdizer dos crentes, como se eu
pudesse ter por certo o negro abismo das coisas
e assim fazer segredo
esta maneira de ver na literatura
a condição dos mais ausentes.
Vendo bem não se ouvem passos
ninguém caminha até nós.
Hoje é uma manhã de Maio
e pelos passeios vão as modernas coisas
que um dia aqui nos viram. Em todo o caso
discutimos ainda o sítio das letras
o que fizemos e começámos,
preenchemos o chão. Olhando a idade dos cães
guardamos as mãos
quase nada guardámos para agora largar
e estes livros que lemos
já só são de enfeitar.
A rota é mínima
passar por nós é longe. (Pintura, José de Guimarães, 1995)
A cidade rebela-se e tu nela
o seu tamanho é difícil de medir —
há bairros por espiar
e os buracos das formigas
estão tapados, precisas de um plano.
Imagino a luz dos teus amigos em ti sentada
e como candente
a engoles em contrabaixo.
Abandonas a rua
consta raro este tempo que temos,
foge-te a sexualidade das coisas
uma por uma mas não mexem.
Quando voltas é grave o verão,
queres mar: discutir mar no feminino
entre ter que o cruzar.
Encontras novos piratas em casa,
em coro mais tarde ansiavam por ti.
Os cigarros pequenos ficam bem nas mãos
dos velhos
porque há uma diferença em ter nas mãos
um certo cigarro,
jamais os velhos fumam leveza a fingir que fumam.
os cigarros dos velhos têm de ser de prata
de um cinza urbano que a língua já não lembra
guardam-se no bolso e ninguém sabe,
são mais de um.
um velho a fumar cigarros muito brancos
não ensina nada
porque o que queremos é que seja velho
e que não disfarce o gosto de cada fumo.
estes velhos que ainda fumam
são duvidosos e serenos, têm no braço
o recreio das esfinges e voltam a aparecer
quando passamos
O tom do verso
é como o tom da pele –
e o tom da pele
é mais doutro do que meu,
pode isso ter um corpo?
porque este verso bate as asas
são desse corpo que não sei
e desperto dum embotado sono
desde que a mim me conheceu
Erremos as letras
as primeiras visões do dia
deixemos o aconchego dos escravos —
chamemos a graça
do seu difícil género:
é preciso estarmos calados
muito
porque durante a tarde vamos ferver
estas paradas águas e que sejam
do inquestionável juízo enfim
caídas
Deolinda de perna longa
tão longa que eras Deolinda,
tuas pernas ali ao alto
dando conta do Rapazinho
enquanto teu paizinho...
ó nossa Deolinda,
enquanto teu paizinho pr’ali morria
tão traído este Rapazinho
que desde pequenino
não teve avô que lhe cuidasse
ia ficando sozinhito
vivendo a culpa em sua casa,
numa casa bem purgada
só tristemente infectada
por esse terrível sentimento
de ser gerado no meio do lamento
Deolinda de perna longa,
estava-te no sangue Deolinda de perna longa
depilaste essa firme coxa
no passeio só choviam olhos
e tu coravas, diz lá que não?
coravas como num pesado fogo
subindo-te ondulado,
querias tu que os moços todos
se mostrassem interessados
e tão longa que era Deolinda
que em v ficara ao alto, ganindo,
de calcanhares abertos
enquanto o Rapazinho em ti surgia
enquanto teu paizinho ali morria
Rapazinho este de grande sorte
entre o pecado e a repentina morte
aqui veio sem avô a quem chamar
sem mãe ou santo para acalmar asas