03 junho 2011

"Fica com a felicidade, deixa-me o tédio"





















A senhora de Guermantes prefere dizer cultura com K,
mas isso é só o espírito hereditário da família
que por si fala.
A senhora de Guermantes pode assinar Guermantes-Guermantes,
e aquele hífen não tem nada a ver com espírito hereditário,
mas é de família.
A senhora de Guermantes só diz palavras feias depois do francês,
mas isso é porque em alemão ninguém a entende:
"Kkkkulture", ela diz no meio de artistas e actrizes.
A senhora de Guermantes é um mistério muito exacto,
mas a burguesia dos tempos adula divindades anónimas
que têm hífenes no meio do nome.
A senhora de Guermantes já não gosta de vestidos vermelhos,
e chama de "pequeno" um amigo de outrora enquanto desfila
num teatro de velhos.
A senhora de Guermantes, perdida no tempo, regressa das ondas
mas isso é só o espírito hereditário do tédio
que por si cavalga.

21 março 2011

Topobiografia


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Eu adormeço naquele pensar
em que as coisas são de antes,
talvez fique doente deste modo independente
mas a sensação é distante e furisosa.
A minha nervura - isto é, modo de pensar -
é um gráfico circular
onde as cidades são histórias
e o universo educável.
Falar para um quarto ambiente seria como se para mim falasse
num começo melancólico,
e pedisse desculpa
ao passar pelos lugares que eu sei serem de primeiro espaço.

Ou O despertar da Primavera

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Hoje
a Primavera parece que tocou a todos,
mas a mim, umas horas depois,
tocou-me a Lua.
É 2011,
a Primavera toca a tantos anos assim?
É melhor baixarmos o volume,
e que o último dia do ano
seja como minutos
em que a lua sobre sobre nós se repete
e o resto será apenas, aqui e ali,
em bando talvez,
um horizonte disperso.

12 março 2011

Concerto para violino


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O violino ainda não saiu do chat,
continua aqui
mas não responde.
Chega mais gente por via móvel
e isso irrequieta os protocolos da conversa,
isto é,
da orquestra.
Medem sonatas e ruas inteiras
numa sociedade aberta,
e o violino ainda sem responder.
Se conhecesse o músico por detrás do instrumento
dizia-lhe das boas,
mas entre as siglas que trocam
é difícil entender o que tocam,
isto é,
cada frase da música que fazem.
Ficam perguntas por fazer
(podia ser aquela suspensão de um Vinteuil
que nem sequer nunca existiu, e apesar disso
lemos no Proust e acreditamos que há frases assim)
e tudo porque são mauzinhos com desculpas
que entre músicos se desculpam,
como se uma crazy net just joined the stars together
que naquele concerto tornavam o mundo melhor.

25 fevereiro 2011

Trabalhos Manuais













Aquele poeta está na televisão
e o seu corpo é um edifício de sombras.
Fala sem metáforas sobre a linguagem da metáfora
que é a sua.
É um discurso de linguagem que para ali o põe,
a si e ao seu prémio,
enquanto eu - de pijama de ontem -
enrolo peúgas ao ritmo daquela oração.
E se um poeta lhe dissesse - não haverá melhor metáfora
para em vez de meias enrolar coturnos?

28 janeiro 2011

Pessoas felizes


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Pessoas felizes são pessoas sem vergonha,
conversam à saída da escola enquanto a tarde acaba
(esses teus jeans caem bem).
Mas é segunda-feira, é sempre segunda-feira
neste país de gente mal amada.
São pessoas sem atalhos, pessoas aqui,
a enganar o sol que tu e eu calamos.

21 janeiro 2011

Medo


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É Janeiro por dentro da quieta e lassa manhã
em que me parto -
vemos agora enquanto a sorte é termos o que partir,
caímos por fim em nós. O fim do medo é poético,
uma coisa que dói num coração inteiro.
Atiramo-nos ao chão, isso faz realmente medo,
não é um poema que o salva.