20 junho 2012

A. King & Corelli (aos bailarinos de Alonzo King)


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Passam um pelo outro
e através levantam-se,
como caranguejos respiram.
De um coração branco, meio nu,
unem-se três –
dão corda, rastejam,
deformam-se ao verem o mais belo bailarino dançar.
Mais luz do que pó
na obscuridade são sentinelas eternas.

18 abril 2012

Passeio em obras






















Da confusa gente que se abate na rua
uma máquina trabalha, silenciosa
crua,
uma obra.
A natureza confunde-se com os buracos
de todos os dias,
e um buraco no solo não é um espaço isolado.
Ele – a máquina que em si pensa – retrai-se
ao escutar a voz cuja ruína ali se espalha,
na estrada à sua frente.
É uma terça-feira diferente que desaparece.

19 fevereiro 2012

Detestemos amar

A memória não vai para onde quer,
é sempre levada
pelo intervalo constante do seu turno.
Eu tenho um requisito por princípio,
e que é deixá-la ir.
Mas a coisa é quase sempre a mesma,
isto é, esqueço-me de voltar ao início
que era onde eu sabia ser.
A memória faz-nos mal, além de poder
dar em doença.
Há coisas piores do que não conseguirmos esquecer,
isso requer um balanço de peso
o que também não é fácil se a memória nos toma.
Eu fiz um desenho sob o seu túmulo
e pensei que o antes desaparecera
como que uma vida.
Voltei ao desenho passados três invernos,
e o pior de todos o último.
Quando lá voltei eu disse impossível ser-se aquilo,
aquele amor de segunda mão.

27 janeiro 2012

Espelho meu













Eu preparo-me, enceno.
Juro que tento encenar aquela coisa
que é ser próprio,
e vejo o pouco que custa ficcionar.
Eu preparo-me para o corpo.
Desengano-me se te vejo,
o teu jeito é dinâmico.
E por detrás da cortina que se põe
a dupla forma do desejo liga-me os dias.
Parece haver apenas um tema,
um «saber ter»
como quando mudamos de pensamento
e o contexto é o mesmo.
Eu tenho a criação imprecisa
de te ter,
vario.
A coisa maior que costuma pesar o amor
é doer, diz-se.
E queria que ma doesse mais a mim do que a ti.
O quotidiano de mim
transforma-se em singular
quando prospera sobre um fundo singular.

20 janeiro 2012

Eu e as árvores

Eu tenho esperanças atravessadas
por um arco de tempo
que me dói
e depois disso
é uma melodia de árvores cadentes.
Tão tristemente
as árvores podem ser vistas
e eu cruzo-as
como um passageiro conhecido.
Dizem-me
“despertaste-nos a poesia num lugar recatado”
e eu
“não, minhas caras, o que se passa
é um oco, vejam como eu respiro”.

15 janeiro 2012

Fantasma prático






















O fantasma prático é como os pássaros
que migram durante o dia.
Há um entorno no qual descansa
e de novo se levanta
sem disfarçar o que é.
Um fantasma tem aquela identidade
que acaba em lágrimas,
como um fim. Ele compara-se sem parar
a todas as formas de vida,
e viaja.
Se alguém amar um fantasma prático
é preciso dizer-lhe
“que países queres tu perder?”
(seria, com efeito, uma questão pessoana)
mas de mundano para mundano era mais,
“que regresso te faz voltar?”
E viaja, viaja, sobre nós esse fantasma viaja
escolhendo entre tantos
quem a ele se entrega.

12 dezembro 2011

Escravidão moderna


O senhor disse ao escravo que ele devia ficar
em suspenso.
É uma forma moderna de escravidão
esta de suspender alguém,
e suspendendo sem reforçar o prémio do esforço
– é uma coisa simbólica.
O senhor inventa o delírio para o escravo
suspender o valor do seu trabalho,
para nele ficar o traço de alguém diferente,
dedicado
perto de qualquer coisa impossível.
Então o escravo diz-lhe,
– vou e volto, estarei aqui
(ele não começa a frase por “eu”)
e o senhor,
– tivéssemos nós mais tempo e eu “far-te-ia”
alguém livre.
Pois.
Entre o senhor e o escravo joga-se um tempo
que é de rua,
isto é, negócio.
O escravo sobrevém no mostrador das espécies
figurando o seu próprio elemento,
aquele que o senhor não vai comprar
(e muito menos regatear)
um elemento naquele o senhor se quer tornar.