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Da confusa gente que se abate na rua
uma máquina trabalha, silenciosa
crua,
uma obra.
A natureza confunde-se com os buracos
de todos os dias,
e um buraco no solo não é um espaço isolado.
Ele – a máquina que em si pensa – retrai-se
ao escutar a voz cuja ruína ali se espalha,
na estrada à sua frente.
É uma terça-feira diferente que desaparece.
A memória não vai para onde quer,
é sempre levada
pelo intervalo constante do seu turno.
Eu tenho um requisito por princípio,
e que é deixá-la ir.
Mas a coisa é quase sempre a mesma,
isto é, esqueço-me de voltar ao início
que era onde eu sabia ser.
A memória faz-nos mal, além de poder
dar em doença.
Há coisas piores do que não conseguirmos esquecer,
isso requer um balanço de peso
o que também não é fácil se a memória nos toma.
Eu fiz um desenho sob o seu túmulo
e pensei que o antes desaparecera
como que uma vida.
Voltei ao desenho passados três invernos,
e o pior de todos o último.
Quando lá voltei eu disse impossível ser-se aquilo,
aquele amor de segunda mão.
Eu preparo-me, enceno.
Juro que tento encenar aquela coisa
que é ser próprio,
e vejo o pouco que custa ficcionar.
Eu preparo-me para o corpo.
Desengano-me se te vejo,
o teu jeito é dinâmico.
E por detrás da cortina que se põe
a dupla forma do desejo liga-me os dias.
Parece haver apenas um tema,
um «saber ter»
como quando mudamos de pensamento
e o contexto é o mesmo.
Eu tenho a criação imprecisa
de te ter,
vario.
A coisa maior que costuma pesar o amor
é doer, diz-se.
E queria que ma doesse mais a mim do que a ti.
O quotidiano de mim
transforma-se em singular
quando prospera sobre um fundo singular.
Eu tenho esperanças atravessadas
por um arco de tempo
que me dói
e depois disso
é uma melodia de árvores cadentes.
Tão tristemente
as árvores podem ser vistas
e eu cruzo-as
como um passageiro conhecido.
Dizem-me
“despertaste-nos a poesia num lugar recatado”
e eu
“não, minhas caras, o que se passa
é um oco, vejam como eu respiro”.
O fantasma prático é como os pássaros
que migram durante o dia.
Há um entorno no qual descansa
e de novo se levanta
sem disfarçar o que é.
Um fantasma tem aquela identidade
que acaba em lágrimas,
como um fim. Ele compara-se sem parar
a todas as formas de vida,
e viaja.
Se alguém amar um fantasma prático
é preciso dizer-lhe
“que países queres tu perder?”
(seria, com efeito, uma questão pessoana)
mas de mundano para mundano era mais,
“que regresso te faz voltar?”
E viaja, viaja, sobre nós esse fantasma viaja
escolhendo entre tantos
quem a ele se entrega.
O senhor disse ao escravo que ele devia ficar
em suspenso.
É uma forma moderna de escravidão
esta de suspender alguém,
e suspendendo sem reforçar o prémio do esforço
– é uma coisa simbólica.
O senhor inventa o delírio para o escravo
suspender o valor do seu trabalho,
para nele ficar o traço de alguém diferente,
dedicado
perto de qualquer coisa impossível.
Então o escravo diz-lhe,
– vou e volto, estarei aqui
(ele não começa a frase por “eu”)
e o senhor,
– tivéssemos nós mais tempo e eu “far-te-ia”
alguém livre.
Pois.
Entre o senhor e o escravo joga-se um tempo
que é de rua,
isto é, negócio.
O escravo sobrevém no mostrador das espécies
figurando o seu próprio elemento,
aquele que o senhor não vai comprar
(e muito menos regatear)
um elemento naquele o senhor se quer tornar.
Ela adormece ao som de Lhasa
enquanto uma cabeça de Caravaggio
se esvai pela boca muda de um destino sem texto –
é habitual haver esse destino
que a todo o instante ela o nega,
e eu depois de anos ressurjo-lhe a cabeça.
Ela – uma alma, uma coisa – é uma vida
entre as outras,
morrer de amor decapitado é uma história passada.
Mas há pessoas que são invernos,
têm esse inverno que é diferente dos outros
e nessa adivinhação em que nos põem
o que sobra é o resto.