26 novembro 2011

O princípio da Noite à excepção de mim


















Tu chamares-me à realidade
é dizeres-me que eu sou lixo.
Eu não sou diferente dessas escadas
que tu sobes semana fim da semana.
Mas tu sobe-las de kispo quente
numa noite que era aquela,
e na qual ecoaria a tua vontade de ciência
com o desastre de ver Bach em cada som
(o barulho que ouvimos os teus pés fazer
ao subir).

Eu vim depois embora depois de um beijo,
tu vais telefonar.

22 outubro 2011

Shumann outorgado













O meu regresso ao estudo fez-se por três fases.
Começou pelo princípio da terra,
e de eu achar que o sol era nosso.
Depois, foi pensar ao contrário.
Antes, o início foi um gole, para lá do resto.
Eu não penso senão em ficar ok com o sol,
mas ele pára-me a veia.
A segunda fase foi diferente,
desenvolveu a crítica e o longo desterrar de um piano só
(eu havia mudado de casa)
e o território das novelas mudou de sítio,
isto é, de autor. Eu queria um conjunto de coisas
e o problema das coisas é incerto.
Num terceiro tempo a água ficou.
E tanto tu como eu sorrimos
numa viagem concreta difícil de dizer.

Obstinação

É poético como não haver mistério –
descalçar a razão é um difícil branco
em tempos de Outono.
Eu vi um verso, mas ele chegou-me tarde.
E agora
o meu princípio é declinar,
menos terreno que a terra, ainda assim.
Apesar disso, é declinar
e eu tenho por princípio respeitar a ordem
do ar diverso.

14 outubro 2011

Orosei















De um ponto de vista de certo modo absoluto
esquecemos hoje aqueles solstícios variados, preexistentes,
gerais, inevitáveis.

23 junho 2011

A criação da véspera (ou de como chegar a Roma)

I. A véspera em si

Na véspera de ir para Roma
ela não encontra o soutien certo.
Roma esteve sempre aqui,
antes dos solstícios e de o norte descer à terra.
Imaginemos que ela leva aquele soutien certo
mas que se perde antes de chegar a Roma.
Às mulheres de Roma vendiam-se soutiens d'ouro,
e já lá estavam antes dos solstícios.
Estes solstícios de agora mais parecem varejas do que turismo,
fazem barulho e depressa vão por onde chegam.
O soutien certo é um dado relevante
sobretudo para contornar a simples tentação do ócio
que vai ser Roma.

II. A homeopatia que pode ser Roma

Na véspera de ir para Roma
ela sabe como pedir uma mesa para dois.
É algo de sensual,
apesar de se abespinhar com a falta de reservas.
Um confronto com as leis da justiça acontece depois,
porque de Roma ela irá trazer o seu coração vago
para um determinado português.
Giotto, Caravaggio, vino rosso e rimas espontâneas
farão parte desse seu destino feminino.
Ela não pode dizer na véspera
que amanhã será assim, assim e assim.
Quando muito, ela vai partir de uma ressonância,
de um sonho que lhe foi dado
e o resto é trabalho, ou seja, aquele soutien.
Em Roma há um requisito importante
que é o itálico,
uma elegância diferente, e contudo desejada.
Um humanismo precisa de qualquer coisa aventureira,
como ela,
mesmo que de cor se saibam os nomes dos baptistérios.
Roma é um incêndio,
não só romano, mas litúrgico.
Relativamente a isto, a escolha do soutien
continua a ser para ela um fenómeno de viagem.

III. Do investimento dela

Na véspera de ir para Roma
o plano é uma obra.
Não se pode deitar um fósforo a Roma.
Tudo o que Roma é
é uma mensagem do género vem comigo conhecer a natureza.
Para tudo isso pode ser preciso falar italiano,
aprender duas vezes a ver Visconti
num filme de Luca Guadagnino.
Mas é distinto planear Roma
num solstício português de crise
e sem dinheiro para um soutien de loja.
Ela vai, é outra coisa ter lá chegado.
A minha Europa, ela diz, são os países
nos quais eu por ano passaria quatro meses.
As coisas desagradáveis do seu plano,
isto é, chegar a Roma,
não serão nunca como a deterioração do amor.

14 junho 2011

O homem que queria chegar aonde as Nereides chegam


Era do tipo ter chegado à poesia há um ano.
Enquanto isso
andava nos dicionários à procura de nomes
em dias de chuva.
Ele tinha um plano de intenções. Se o ouvíssemos falar
naquele seu tom sereno e ponderado,
se o observássemos agora,
ele mesmo não teria duvidado de tal.
Em nenhum dicionário teria visto aquela palavra
cujo significado - antes de o achar poético -
lhe dissesse o tempo.
Na primeira fila dos recitais cruzava as pernas,
e enviava sem querer olhares suspensos
às mulheres poetas à sua frente.

03 junho 2011

"Fica com a felicidade, deixa-me o tédio"





















A senhora de Guermantes prefere dizer cultura com K,
mas isso é só o espírito hereditário da família
que por si fala.
A senhora de Guermantes pode assinar Guermantes-Guermantes,
e aquele hífen não tem nada a ver com espírito hereditário,
mas é de família.
A senhora de Guermantes só diz palavras feias depois do francês,
mas isso é porque em alemão ninguém a entende:
"Kkkkulture", ela diz no meio de artistas e actrizes.
A senhora de Guermantes é um mistério muito exacto,
mas a burguesia dos tempos adula divindades anónimas
que têm hífenes no meio do nome.
A senhora de Guermantes já não gosta de vestidos vermelhos,
e chama de "pequeno" um amigo de outrora enquanto desfila
num teatro de velhos.
A senhora de Guermantes, perdida no tempo, regressa das ondas
mas isso é só o espírito hereditário do tédio
que por si cavalga.