18 março 2008

Translação


O tom do verso
é como o tom da pele –
e o tom da pele
é mais doutro do que meu,
pode isso ter um corpo?
porque este verso bate as asas
são desse corpo que não sei
e desperto dum embotado sono
desde que a mim me conheceu

01 março 2008

Possessão


Erremos as letras
as primeiras visões do dia
deixemos o aconchego dos escravos —
chamemos a graça
do seu difícil género:
é preciso estarmos calados
muito
porque durante a tarde vamos ferver
estas paradas águas e que sejam
do inquestionável juízo enfim
caídas

10 janeiro 2008

Coro dum acto para uma cena


Deolinda de perna longa
tão longa que eras Deolinda,
tuas pernas ali ao alto
dando conta do Rapazinho
enquanto teu paizinho...

ó nossa Deolinda,
enquanto teu paizinho pr’ali morria

tão traído este Rapazinho
que desde pequenino
não teve avô que lhe cuidasse
ia ficando sozinhito
vivendo a culpa em sua casa,
numa casa bem purgada
só tristemente infectada
por esse terrível sentimento
de ser gerado no meio do lamento

Deolinda de perna longa,
estava-te no sangue Deolinda de perna longa

depilaste essa firme coxa
no passeio só choviam olhos
e tu coravas, diz lá que não?
coravas como num pesado fogo
subindo-te ondulado,
querias tu que os moços todos
se mostrassem interessados

e tão longa que era Deolinda
que em v ficara ao alto, ganindo,
de calcanhares abertos
enquanto o Rapazinho em ti surgia
enquanto teu paizinho ali morria

Rapazinho este de grande sorte
entre o pecado e a repentina morte
aqui veio sem avô a quem chamar
sem mãe ou santo para acalmar

asas

21 dezembro 2007

triálogo

Quem é que tem ideias? - duvidou a Liliana - filosofar sobre o presépio?
Aquela coisinha que conhecemos - disse o António - então o que é o presépio?
A Liliana encosta-se e ri. Penteia o cabelo e ri,
É onde a nudez do mundo tem calor, eu acho que é evidente - graceja
Fábio, é isso? Ora bem Fábio, o que achas disto? - tentou o António
Fica desconfiado, coça ligeiramente a barba, mas adianta,
É o berço... o princípio - diz em voz arrastada
É tipo o nosso nascimento - acrescenta a Liliana
Mas o que é que nasceu primeiro? - provoca o António
Voltam a centrar-se naquela frase. Aquela onde Miguel Torga associa presépio a nudez e fala sobre o calor do mundo.
Talvez a família - resolve dizer a Liliana - no fundo, pode ser a família a dar um sentido ao mundo em si
Ainda com a mão no canto da orelha, o Fábio atira a palavra afectividade, mas baixo. Segura a caneta com a ponta virada para cima, cala-se, aponta qualquer coisa no papel. Fica concentrado talvez a tentar definir uma ideia mais precisa sobre o natal.
Parece que é verdade, que se perdem vinte e uma gramas quando morremos - disse a Liliana
Mas isso está provado, cientificamente? - pergunta o António
A questão é: como é que se passa do nascimento à morte - voltou a introduzir a Liliana
No fundo é uma questão de fé - ouve-se dizer
O António fica parado olhando para o pedaço de papel com a tal frase. Vira-se para o Fábio quando este decide dizer que a afectividade é importante para a construção humana.
Sim, não sei se já viram... - comenta o António - ainda se fazem presépios humanos aí pelo mundo fora
Desviam-se da frase do Torga e iniciam uma pequena conversa sobre um assunto da semana passada.
É, podia ser um presépio de animais - ri-se a Liliana

04 dezembro 2007

incipit

asas
apesar de a língua que depois falamos
ser diferente
ainda temos no início da frase
uma tão louca coisa a afirmar
mais do que a dizer
que é o que quisemos escrever:

paz à nossa alma
asas

26 outubro 2007

paredão: 2002


já começara a nítida madrugada
estivemos ali sentados no paredão
levando com os salpicos de sal nos pés
e dissemos descalça-me, pareceu por dentro

foi da areia que trouxemos coisas caladas
já que sob a pele tudo dizia
quase a voltar no tempo, se a isso levasse:
desvicia-me, dissemos enquanto descíamos as horas

e vimos uma solidão de buraco vazio
subindo no distante da noite, tão instante
como aquele jogo de língua a serpentear
os lábios de todos os irrepetíveis espaços
asas

12 outubro 2007

credo





as
as
as
as
as

as
as
as
as
as
as
as
o ódio aos livros começou na poderosa
fogueira
onde entre autor e leitor deixou de haver
silêncio

e foram precisos dois mil anos
para que os credos fossem hoje
as grandes máquinas,

onde ninguém já mais se inscreve
ou muito menos proscreve

asas