15 Maio 2009

Ou a busca das folhas


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Cheiras a difíceis troncos de pele,
semeias palidez quando custa acreditar
que dos gatos sejas, dessas suas cores.
Nas alturas em que és difícil sonho contigo
em carrosséis mudos, e no amanhecer dispersos
imagino não ter sonhado coisa alguma,
é de dia. Queira o destino dizer-me isto,
mas que seja como um camelo cego
que em folhas de árvore rosa vê nascer
pássaros verdes.

21 Fevereiro 2009

Ou o olhar de uma camélia



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Os nervos redondos desta flor
de dentro queimados, cortados,
largam fogo. Espalham-se em mil partículas,
cuja delicadeza é cada poro
ou o selvagem desvio dos traços uma única vez feito.

Uma a uma, as pontas abrem
guardando dentro a perdida seiva
que no ar se vai. Uma flor assim despida,
pronta para olhar, faz temer as mãos
que difíceis ficam.

E ambos sabemos, a camélia e eu,
que o estado primitivo é sempre o corpo,
este tom, esta visita, este princípio.

15 Janeiro 2009

Luxuriante

Meu Caro,
A começar pela sua forte estatura, era de oferecer-lhe um busto de Alexandre, há algo no penteado de ambos que me recorda a Grécia, e depois não me diga que as estátuas ou, enfim, a oferenda de pequenas estatuetas não cola com a minha suposta nobreza que em presentes se quer ver traduzida. Os bustos geralmente eternizam as imagens, a não ser que ocorram terramotos imprevistos — já que as previsões falham sempre algum detalhe — e no seu caso ter-se-ia de pensar numa matéria da cor dos peixes, porque o tom marítimo cai-lhe bem. Começaria pelas orelhas, redondas e com ar bucólico, e depois desceria para o pescoço, apenas ligeiramente rugoso, mas ao mesmo tempo solene e indicativo do peso que os pensamentos têm em si. Avançaríamos em seguida para as faces, cada uma recortada com a identidade que lhe é própria, como quando sorrimos apenas de um dos lados, ou como quando existem determinados traços entre o nariz e a boca que vão variando consoante os diferentes estados de humor. As suas faces não seriam nunca gémeas e, se só existissem três ou quatro traços a esculpir-lhes as formas, eles seriam o espanto, a indignação, a curiosidade e a sensualidade. Chegando à secção do olhar, e sendo o busto apenas de uma cor, de um azul de algum modo esbranquiçado, da cor do gesso, imaginamos a lâmina negra que habita as aves, ou os gatos, ou então as cobras. Mas há também nas borboletas belíssimos estampados de olhos, e há até fotografias de grande pormenor que nos confundem as perspectivas: quando julgamos ser um nó, num tronco de madeira, trata-se afinal de um peculiar ponto de animal. Haveria então aí, nesses olhos de busto, um feixe de antemão criado pelos rupestres, algo que desde as origens sempre esteve gravado nos buracos e que sempre se debateu, ao longo da sua existência, por uma fina procura de luz — seria, portanto, um olhar luminoso. O busto continuaria assim a ser moldado até ao começo do peito, que estaria coberto pela ilusão de um manto, também ele recortado pelas vestes de uma márcia em silêncio, expectante das auroras. Não haveria lugar a membros, e não saberíamos de que substância far-se-iam os dedos; julgaríamos apenas, ou tão-somente, que pedras preciosas e algumas pérolas da cor das cinzas — pois é certo que queimamos o que mais adoramos — estariam algures dentro do coração.

15 Novembro 2008

Carta sobre a busca da voz

Por mais do que uma vez já tive aquela visão
do precipício, é numa varanda e as estrelas já
se meteram atrás da noite, começa a amanhecer
sem a impressão de se ter dormido. Noutras
alturas desperto a meio dos sonhos
tendo a consciência plena de que me estou a lançar
ou a ser lançado enquanto o passeio raso no meu
rosto estala. Quando acordo, dá-me pena que isso
seja um sonho, embora se real fosse eu não poderia
agora pensar nessa lembrança. Atravessam-se navios
furando o estômago, lamparinas abertas
ao som do corpo largado e eu dizendo que já
escrevera sobre estes retratos da morte. Há quem
tenha o impulso contrário e se reveja nos pais
nos irmãos ou nos corações que intensamente amou:
«Reparem senhores», eu digo, «a fé nas almas é o segredo
encriptado. Só quem muito vive – ou quem desvive –
poderá um dia encarar a morte, despir-lhe as tramas
para se tornarem suas» E depois, ao mesmo tempo
que imagino aquela visão do precipício, declaro:
«Antes, não fustigávamos os textos por causa do amor,
tínhamos a sorte à nossa volta, um sítio onde não mais
do que duas pessoas conversam», e isso nem era amor
ou a elaboração mental do amor, líamos muito pouco
e talvez déssemos pouca importância aos nomes
que as coisas têm, como por exemplo a palavra
«malsã», à qual hoje me agarro para dizer doentia
e mais doente fiquei. Tu foste-me avisando para ter cuidado
com a língua, ou que eu fui crescendo à margem da língua,
que viver não tem dialecto e que à hora de falar
todos os livros têm muito pouco lugar. Quando projecto
aquela visão do precipício não é na verdade
o meu corpo a cair, porque remexo as línguas que tenho
à procura da menos pronta, da que quero ver a seguir.

E como julgo saber que sabes, tudo isso é um ardil perfeito.
Cada vez mais substituímos o olhar
pelo falar e o falar pelo escrever, e esta caligrafia que somos
oculta-nos a visão das formas, de todos os signos
que desaprendemos ver: «Serei a observação perpétua de ti»,
digo, «dos incorpóreos traços de quem não sei,
fugido às pressas de prever quem sejas. Escrevo
nos mais improváveis sítios, contornando e a fazer
que contorno os substantivos que não tenho para dizer
o que tenho, separado do tempo algures com a imagem
de uma palavra já dita, certo que se aqui a pudesse escrever
era para ser a primeira a visitar-te de dia.»

10 Outubro 2008

Norte

Temos anos setenta de mais, muitos anos setenta na cabeça, ela nem tanto, ela prefere recriar o visual como se pela primeira vez estivesse a atingir o olhar de um bebé, nem faz esforço, parece abanar a campainha em nome da Josefina ou de outro nome de criada assim parecido, passa fugindo a formar nas cabeças dos outros um triângulo sem disciplina, apenas risonho por a vermos passar. Os seus anos setenta assentam na cintura, no penteado que fez depois das férias em Alicante, previsível como por ser mulher tirada à página de revista que se tem em casa ao fim-de-semana, e nem tem de esconder os defeitos naturais apenas semelhantes aos que as pessoas fazem de conta ter, talvez devido a um complexo burguês que quase sempre nos leva a ver o mundo composto por castas. Esta pessoa é no entanto diferente, os seus defeitos naturais não se devem tanto a uma psicologia social demasiado internalizada. Nem pode dizer-se que seja calculista como se apostasse num valete de copas ou num outro qualquer laço preto. O azul desencantado que lhe cobre as formas é a convivência que sabemos existir entre quem vive por si e que ao mesmo tempo gasta horas construindo esperanças imaturas. Tem aquele ar moralizado por onde já calcorrearam as temíveis contradições, e as terras que um dia viu e desejou esquecer. É limpa, custa acreditar, embora deva ter passado algumas tardes sozinha na companhia de um chá ou de um livro, e tudo menos Zola, esses romances não podem ter os anos setenta da urbe que a desenha, nem em corpetes de ópera, fingindo ver o que não vê, teria a máscara que hoje queremos de uma mulher, tão incerta como voluntariamente confidente. Ela pesa as medidas adequadas daquela cinzentez de alguém intelectualmente célere, mas com a capacidade estimável de contrabalançar poderes contrários e de, por uma qualquer infância nutrida, tornar-se submissa no igual incómodo da sensatez. Oh que alegre pode ser um dia avistá-la de propósito.

03 Outubro 2008

Quadrado mágico

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Passámos quatro países onde todos
os gatos dormiam, e podiam ser seis
as horas do relógio que os reis nem sabiam.
É mais desejoso viajar do que passar
entre cidades sonâmbulas, porém fossem seis
ou fossem nove as nossas horas são
das árvores. Usamos o vento
à chegada nos sítios, são mais do que duas
as árabes terras no ferro brotadas, mais os bichos
e os ramos à água voltados. Cismamos como
cadáveres em cima de furos por ver,
saturamos de sol a rota e os veios. Podemos
pensar ou até mal fazer a abertura
das bocas, sabemos que pela manhã
atravessam primeiro os pássaros negros.

07 Agosto 2008

O grande sereio disse à mulher para cortar o bigode quando viu o mar


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Tinha vindo numa excursão religiosamente pensada e tinha pago a viagem já com três meses de antecedência. Havia gente que chegava à aldeia no verão e que se punha a contar isto e aquilo sobre o mar. Muito alegremente, mostravam uma pele dourada, tinham as pontas dos cabelos torradas e um sorriso difícil de explicar por quê. Pôs-se a mexer, meteu-se na camioneta. Viajava sozinha e pelo meio telefonou para a prima que estava em casa com tudo para fazer. Achou porém que se sentiu culpada. A seu lado dois homens fumaram como burros à janela, eram velhos e teve a impressão que cheiravam mal. Preferiu ignorar, fazer de conta que se entretinha com a paisagem lá fora. Veio sem nenhum saco, era uma coisa de um dia, apenas vê-lo e depois voltar. Já perto da costa era ainda preciso apanhar um autocarro para a praia. Estamos praticamente no fim de Setembro, pode ser que não esteja lá muita gente, pensou enquanto estava parada à espera. À medida que se aproximava da marginal, dentro do autocarro, ia vendo por trás do vidro uma linha recta pouco nítida por causa de uma chuva miudinha. Saiu: havia ar por arrumar, pensou, muito ar junto, falta aspirá-lo para algum lado, está à solta. O mar era uma grande goela, engolia furioso tudo e todos, diziam-lhe que aquilo era um cemitério entornado, parecia ser soprado de baixo para cima. O mar mais lhe pareceu a linha recta que afinal o mundo tem, não a que se via lá ao longe, no horizonte, mas a que se fazia no seu dorso. E às ondas que viu perguntava se lhe saberiam dizer por que tardava o seu amigo sem ela. De repente aquilo era o continente de todas as terras, a enfim solidão onde a clareza pode ser pensada.